Numa aldeia rural de Hokkaido, um lobo de olhos vermelhos gira lentamente a cabeça e começa a uivar. Não há nenhum caçador por perto. O que está ali é um autómato de pouco mais de um metro, coberto de pele artificial, com presas brancas e luzes LED a piscar, e está, aparentemente, a funcionar melhor do que muita coisa que o Japão já tentou contra os ursos.
O país atravessa o pior momento registado em termos de ataques de urso. No ano fiscal encerrado em março de 2026, foram registadas mais de 50.000 avistamentos de urso negro asiático em todo o território, mais do dobro do recorde anterior, estabelecido apenas dois anos antes, em 2023. Os ursos mataram 13 pessoas, um número que ultrapassa em mais do dobro o anterior máximo histórico de seis mortes, e feriram mais de 230. O Japão regista consistentemente mais ataques fatais de urso por ano do que os Estados Unidos, um país com vastíssimas áreas de território selvagem.
Foi neste contexto que a Ohta Seiki, uma pequena empresa sediada em Hokkaido, se viu subitamente sobrecarregada de encomendas. O produto que fabrica, o Monster Wolf, foi apresentado em 2016 e durante anos foi tratado como pouco mais do que uma curiosidade, um espantalho animatrónico de cerca de 4000 dólares, com pele sintética, olhos vermelhos, luzes azuis e vermelhas e a capacidade de reproduzir mais de 50 sons diferentes, de uivos de lobo a vozes humanas, audíveis a até um quilómetro de distância. Um sensor infravermelho deteta animais em aproximação e ativa o dispositivo, que também consegue rodar a cabeça de um lado para o outro para simular um predador à espreita.
A ideia original era proteger terrenos agrícolas de javalis e veados. Os ursos vieram mais tarde, e com eles, a viragem na perceção pública do produto.
Yuji Ohta, o presidente da empresa afirmou: “Fazemo-los à mão. Neste momento não conseguimos produzi-los suficientemente depressa. Estamos a pedir aos nossos clientes que esperem dois a três meses”.
Só em 2026, a Ohta Seiki já recebeu cerca de 50 encomendas, mais do que habitualmente recebe num ano inteiro. Mais de 380 unidades já foram vendidas no total, maioritariamente a agricultores, municípios, operadores de campos de golfe e trabalhadores em zonas rurais.
Porquê agora e porquê ursos
A explosão de avistamentos e ataques tem explicações que se acumulam há anos. As populações de urso negro asiático recuperaram significativamente após décadas de caça excessiva. Ao mesmo tempo, o despovoamento das zonas rurais do Japão deixou para trás casas abandonadas e árvores frutíferas por colher, atrações óbvias para animais à procura de comida. A isto junta-se a quebra generalizada de produção de bolotas e faias em 2025, o principal alimento dos ursos antes da hibernação, que os forçou a aventurar-se cada vez mais fundo em territórios humanos.
O outro fator é a escassez de caçadores. O regime japonês de licenciamento de armas de fogo é restritivo, e a população de caçadores licenciados envelhece sem que haja renovação suficiente de gerações. O resultado é que os ursos chegam a zonas residenciais, a supermercados, a escolas e a parques de estacionamento de bancos, e muitas vezes não há resposta humana disponível.
A Ohta Seiki não pretende ficar pela versão atual do dispositivo. A empresa está a desenvolver versões com rodas para que o robot possa patrulhar zonas específicas ou perseguir animais em movimento, em vez de ficar fixo num ponto. Está também a explorar câmaras com inteligência artificial para modelos futuros, e planeia criar uma versão portátil pensada para quem caminha, pescadores e crianças a caminho da escola.
O governo japonês comprometeu 3,4 mil milhões de ienes, cerca de 22 milhões de dólares, em medidas contra os ursos, incluindo subsídios para caçadores, armadilhas e drones de vigilância. O Monster Wolf é apenas uma peça de um problema que o país tenta resolver com tudo o que tem disponível.









