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YouTube vai passar a identificar automaticamente vídeos criados por IA

Hell Mode screenshot PC computer gaming

Durante anos, a responsabilidade de avisar os espectadores sobre o uso de inteligência artificial nos vídeos ficou exclusivamente nas mãos de quem os criava. A partir de agora, o YouTube deixa de depender apenas dessa honestidade voluntária, a plataforma anunciou esta semana que vai começar a detetar automaticamente conteúdo fotorrealista gerado por IA e a aplicar uma etiqueta de identificação, mesmo que o criador não tenha feito qualquer declaração.

A mudança foi anunciada a 27 de maio de 2026 e faz parte de um conjunto de atualizações pensadas para dar mais transparência aos utilizadores sobre aquilo que estão realmente a ver. A obrigação de declarar o uso de IA já existe há mais de dois anos no YouTube, desde que a plataforma atualizou as suas políticas e criou uma ferramenta no Creator Studio para que os criadores assinalassem quando o conteúdo podia ser confundido com imagens reais de pessoas, locais ou acontecimentos. O que muda agora é que o sistema deixa de ser exclusivamente reativo.

Como vai funcionar a deteção automática

Conforme explicado pelo próprio YouTube, se um criador não especificar se usou IA no seu vídeo, mas os sistemas internos da plataforma detetarem “utilização significativa de IA fotorrealista”, a etiqueta será aplicada automaticamente. A formulação usada pelo YouTube foi direta: “Se um criador não especificar se utilizou ou não IA, mas os nossos sistemas detetarem utilização significativa de IA fotorrealista, iremos agora aplicar automaticamente uma etiqueta”.

Os criadores que considerem que a etiqueta foi aplicada por engano podem contestá-la através do YouTube Studio e atualizar o estado da declaração. No entanto, há casos em que a etiqueta fica permanente e não pode ser removida:

  • Vídeos criados com ferramentas de IA do próprio YouTube, como o Veo ou o Dream Screen
  • Conteúdo que contenha metadados C2PA a indicar que foi gerado integralmente por IA

O C2PA (Coalition for Content Provenance and Authenticity) é um padrão da indústria que incorpora informação sobre a origem e autoria dos ficheiros diretamente nos seus metadados. A OpenAI comprometeu-se recentemente com este padrão, juntando-se a empresas como a Nvidia, Kakao e Eleven Labs.

YouTube aviso IA

As etiquetas ficam mais visíveis

A par da deteção automática, o YouTube está também a tornar estas etiquetas mais fáceis de identificar à primeira vista. Até agora, a informação sobre uso de IA aparecia na descrição expandida do vídeo, o que obrigava o utilizador a clicar para a ver. Com as novas alterações, a etiqueta passa a surgir diretamente abaixo do leitor de vídeo nos vídeos de formato longo, e em sobreposição nos YouTube Shorts, ou seja, visível antes mesmo de o vídeo começar.

Esta mudança aplica-se especificamente a conteúdo fotorrealista ou que tenha sido significativamente alterado por IA. Edições menores, conteúdo animado ou alterações subtis continuarão a ser divulgados na descrição expandida, sem etiqueta em destaque.

Vale sublinhar que estas etiquetas não afetam a forma como os vídeos são recomendados pela plataforma, nem a elegibilidade para monetização. Trata-se de uma medida de transparência para o espectador, não de uma penalização para o criador.

A luta contra o “AI slop”

Esta atualização não surgiu do nada. Em janeiro de 2026, o CEO do YouTube, Neal Mohan, publicou a sua carta anual à comunidade, onde identificou o combate ao chamado “AI slop”, conteúdo de fraca qualidade produzido em massa com ferramentas de IA, como uma das principais prioridades da plataforma para este ano. Mohan escreveu diretamente sobre o assunto: “O crescimento da IA levantou preocupações sobre conteúdo de baixa qualidade, também conhecido como ‘AI slop'”.

A mesma carta reconhecia que “está a tornar-se cada vez mais difícil distinguir o que é real do que é gerado por IA”, e comprometia o YouTube a garantir que “a IA serve as pessoas que tornam o YouTube grande, os criadores, parceiros e os milhares de milhões de espectadores que procuram uma ligação mais profunda ao mundo à sua volta”.

A medida anunciada esta semana é, em parte, uma concretização dessa promessa. O YouTube refere que ouviu consistentemente da sua comunidade que a transparência em relação ao conteúdo gerado por IA é algo que os utilizadores valorizam. A plataforma descreveu as mudanças como sendo “concebidas para equilibrar a transparência com o controlo do criador”.

A atualização é um passo na direção certa, mas deixa uma lacuna evidente, as etiquetas continuam a não aparecer nas miniaturas dos vídeos nos resultados de pesquisa ou nas sugestões. Para quem quer evitar conteúdo gerado por IA desde o início, sem ter de abrir o vídeo, essa informação continua a chegar tarde demais.

A expansão desta funcionalidade para as miniaturas seria o passo lógico seguinte, e, provavelmente, o mais útil para os utilizadores que já sabem que não querem ver este tipo de conteúdo antes de clicar.

Esta atualização chega também pouco depois de o YouTube ter expandido o seu programa de deteção de deepfakes a todos os utilizadores adultos, permitindo que qualquer pessoa com 18 ou mais anos pesquise na plataforma por correspondências faciais, uma funcionalidade que antes estava limitada a celebridades, figuras públicas e políticos.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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