
Hamburgo, ISC 2026. Martin Hiegl, diretor executivo da Lenovo, estava a responder a uma pergunta sobre as perspetivas dos preços de memória quando disse que os preços nunca voltariam aos níveis anteriores à crise atual. O público riu, provavelmente de forma nervosa, mas a mensagem de fundo é clara e preocupante, durante pelo menos os próximos cinco anos, os preços elevados de DRAM e NAND são a nova realidade.
A análise da Lenovo prevê que um “novo normal” possa emergir a partir de 2030, mas mesmo nesse cenário, os preços serão significativamente mais altos do que os de 2024 e 2025. Isto já tem em conta a entrada em operação de novas capacidades de fabrico a partir de 2028, nomeadamente os planos da SK Hynix de triplicar a sua produção de memória até 2034. O raciocínio da Lenovo é simples, os fabricantes de memória não investiriam este montante em expansão de capacidade se esperassem regressar às margens apertadas e ao excesso de oferta que caracterizou o mercado no início de 2025.
Para perceber como se chegou aqui, é preciso olhar para os últimos dois anos. A Samsung, a SK Hynix e a Micron, os três fabricantes que controlam mais de 90% da produção mundial de DRAM, viraram quase por completo as suas capacidades de fabrico para a produção de High-Bandwidth Memory (HBM), o tipo de memória de alto desempenho utilizado nos chips de inteligência artificial. O resultado foi uma subida dos preços de DRAM de 90% só no primeiro trimestre de 2026 face ao trimestre anterior.
O impacto já está a chegar aos consumidores por várias vias. A Microsoft anunciou novos aumentos de preço para as consolas Xbox a partir de 1 de agosto, com a Xbox Series X a atingir os 800 dólares nos Estados Unidos. A Apple anunciou recentemente aumentos de preço nas suas linhas de Mac e iPad. A Valve foi obrigada a rever em alta o preço da Steam Machine, que deveria ter ficado abaixo dos 750 dólares. A Sony aumentou os preços da PS5 em múltiplas ocasiões desde o lançamento. A Nintendo anunciou ainda um aumento do preço da Switch 2 para setembro.
Na apresentação, a Lenovo partilhou aquilo a que chamou um “RAMageddon Survival Guide”, um guia de sobrevivência para compradores de sistemas em contexto empresarial e de datacenter, com cinco passos que incluem rever requisitos de memória, otimizar operações, escolher o CPU adequado, ajustar aplicações e migrar cargas de trabalho para GPUs sempre que faça sentido. Trata-se de uma resposta dirigida a gestores de infraestrutura, mas o diagnóstico subjacente aplica-se a toda a cadeia, a memória barata que existia em 2024 e no início de 2025 foi, provavelmente, uma anomalia histórica que não se repetirá tão cedo.
O CEO da Micron, Sanjay Mehrotra, disse em junho de 2026 que espera que a escassez se prolongue pelo menos até 2027, com uma melhoria gradual da oferta a partir de 2028. Ao contrário da escassez de chips de 2020-2023, provocada por disrupções pandémicas na cadeia de abastecimento, esta crise resulta de uma realocação estrutural e deliberada da capacidade de fabrico, e isso não se reverte facilmente.









