
Quando a Sony anunciou que ia deixar de produzir discos físicos para jogos de PlayStation a partir de 2028, muita gente na indústria dos videojogos assumiu que a GameStop, a maior cadeia de retalho especializada em videojogos do mundo, seria uma das mais afetadas. Ryan Cohen, o presidente executivo da empresa, discorda por completo, e não hesitou em dizer isso mesmo em direto na televisão.
“Totalmente, totalmente irrelevante”
Numa entrevista à Bloomberg, transmitida a 16 de julho, foi perguntado a Cohen que impacto teria nos planos de negócio da GameStop a mudança dos fabricantes de consolas para um formato totalmente digital. A resposta não deixou margem para dúvidas: “Não interessa nada”, afirmou, acrescentando que a decisão da Sony é “totalmente, totalmente irrelevante” para a empresa.
O CEO justificou a afirmação com números concretos: “O software, isso interessava no passado. O software hoje representa menos de 12% do negócio, e os colecionáveis representam mais de metade do negócio. Por isso é totalmente, totalmente irrelevante”.
Por muito estranha que possa parecer esta despreocupação vinda do CEO de uma cadeia historicamente associada à venda e revenda de jogos físicos, os números da própria GameStop confirmam a mudança de rumo. As vendas de software, incluindo cópias digitais e físicas, representam apenas 18% do negócio da empresa atualmente. Os colecionáveis, onde se incluem cartas de jogos como Pokémon, tornaram-se a verdadeira espinha dorsal da faturação, com 41% das vendas totais. É uma inversão quase completa em relação ao modelo de negócio que tornou a GameStop conhecida: comprar e revender jogos físicos usados.
Este novo equilíbrio ajuda a explicar por que razão a Sony deixar de fabricar discos deixou Cohen tão indiferente. O anúncio da Sony, feito no início de julho, prevê o fim da produção física de novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028.
Cohen aproveitou a mesma entrevista para destacar os resultados financeiros mais recentes da empresa, referindo que a GameStop obteve 143 milhões de dólares de lucro operacional no primeiro trimestre de 2026, o que classificou como “os lucros operacionais mais altos da história da empresa”. O valor está em linha com o comunicado oficial divulgado pela própria GameStop junto da SEC, o regulador dos mercados financeiros dos Estados Unidos, que confirma um resultado operacional de 143,3 milhões de dólares, o melhor primeiro trimestre de sempre para a companhia.
Perante a surpresa gerada por estes números, Cohen não resistiu a atirar farpas à imprensa: “Toda a gente nos meios de comunicação quer que a GameStop falhe. Expliquem-me isso, expliquem-me porque é que toda a gente na imprensa mainstream quer que a GameStop falhe”, desafiou.
Uma oferta rejeitada e um histórico de apostas polémicas
Grande parte da conversa com a Bloomberg girou também em torno da mais recente e ambiciosa jogada de Cohen, uma oferta não solicitada de 56 mil milhões de dólares para comprar o eBay, apresentada em maio. A proposta, avaliada a 125 dólares por ação e paga metade em dinheiro e metade em ações da GameStop, foi rejeitada pelo conselho de administração do eBay a 12 de maio, com o presidente Paul Pressler a classificá-la como “nem credível nem atrativa”.
Não é a primeira vez que a GameStop toma decisões de negócio pouco convencionais. Em 2022, a empresa lançou um marketplace de NFTs que acabaria por fechar portas apenas 18 meses depois, um episódio que, para muitos analistas, resume bem o padrão de apostas arriscadas que tem caracterizado a gestão de Cohen à frente da companhia.









