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Inio Asano, criador de Goodnight Punpun, revela o motivo da pausa de Mujina Into the Deep

Criador de Goodnight Punpun fala abertamente sobre IA no mundo do mangá

Inio Asano, o autor por trás de títulos como Goodnight Punpun e Dead Dead Demon’s Dededede Destruction, acabou de dar uma explicação que ninguém esperava para a pausa prolongada de Mujina Into the Deep. Em entrevista ao programa japonês WEEKLY OCHIAI, apresentado pelo artista multimédia Yoichi Ochiai, o mangaká revelou que a postura atual da indústria em relação à inteligência artificial pesou diretamente na decisão de suspender a obra até 2027.

A conversa, publicada parcialmente no YouTube e disponível na íntegra através da plataforma News Picks, acabou por se tornar um dos momentos mais comentados da semana entre fãs de mangá, precisamente pela forma direta como Asano abordou um tema que continua a dividir a indústria japonesa.

De história intimista a mangá de ação

Antes de chegar ao tópico da IA, Asano explicou como Mujina Into the Deep acabou por se transformar numa obra bem diferente daquilo que tinha inicialmente em mente. A ideia original era simples, contar a história de um homem de meia-idade sem grandes perspetivas de vida, numa rua comercial qualquer.

“Inicialmente, era suposto ser uma história simples e realista sobre este homem de meia-idade sem esperança numa rua comercial. Mas quando criei a cidade em 3D, pensei: consigo fazer um mangá muito mais adequado a isto, e naturalmente tornou-se um mangá de ação”, contou.

Quem segue Asano no X já deve estar familiarizado com o facto de mais de 90% dos cenários de Mujina Into the Deep serem criados pelo próprio autor recorrendo ao Unreal Engine e ao Blender. Sempre que possível, recorre a assets pagos, mas também modela os seus próprios elementos quando necessário, uma técnica que já vinha a desenvolver desde Dead Dead Demon’s Dededede Destruction e que apresentou publicamente na Unreal Fest Tokyo.

Um tabu que trava a produção

Foi quando questionado sobre a possibilidade de usar IA para acelerar o processo de modelação e distribuição de elementos num mundo aberto tão vasto que Asano se tornou particularmente franco.

“É definitivamente possível, mas há um problema muito complicado, que é até que ponto se pode usar IA”, começou por explicar.

Segundo o autor, o próprio mercado editorial japonês vive hoje uma espécie de impasse silencioso em torno do tema.

“Neste momento, as editoras não estão numa posição em que possam dizer abertamente que permitem o uso de IA”, comentou Asano. “É uma situação estranha; não é permitido usá-la precisamente por seres um profissional”.

Este clima de desconfiança em relação à IA generativa não surge isolado. Recorde-se que, no final de 2025, dezassete das maiores editoras japonesas, incluindo a Shogakukan, responsável pela publicação de Mujina Into the Deep, se uniram numa aliança inédita contra o uso deste tipo de tecnologia, juntamente com associações de autores de mangá e de animação, na sequência da polémica gerada pelo Sora 2 da OpenAI.

É precisamente este ambiente que, segundo Asano, o levou a colocar Mujina Into the Deep em pausa, uma decisão que tinha sido inicialmente justificada apenas com o desgaste físico do autor e a falta de material preparado, segundo o que tinha sido comunicado nas redes sociais quando o primeiro arco da obra terminou em abril. Agora, porém, Asano acrescenta mais uma camada a essa explicação.

“Tal como estão as coisas, os mangaká não têm permissão para usar IA. Mas usá-la aumenta a qualidade de forma muito significativa. Então, será que não faz mais sentido não desenhar o mangá agora? Talvez levantem a proibição [sobre a IA] no próximo ano, por isso pode ser melhor começar a desenhar depois de isso acontecer. Estou neste momento em stand-by nesse sentido”, afirmou.

Asano não especificou se, ou até que ponto, pretende efetivamente recorrer a ferramentas de IA quando essa decisão for tomada, mas foi claro ao dizer que a tecnologia poderia acelerar consideravelmente o processo de modelação dos seus cenários tridimensionais.

capa Portugal Boa Noite Punpun

A inspiração vem dos videojogos, não de outros mangás

Um pormenor curioso partilhado por Asano durante a conversa foi a origem criativa das suas histórias mais recentes. Ao contrário do que se poderia esperar de um autor do seu meio, Asano afirma não se inspirar particularmente noutros mangás ou animação, mas sim nos videojogos, em especial na saga GTA, da Rockstar Games.

Segundo explicou, todas as suas obras posteriores a Dead Dead Demon’s Dededede Destruction, incluindo Mujina Into the Deep, nasceram a partir da construção prévia de um verdadeiro “mundo aberto”, à semelhança do método de desenvolvimento usado nesses jogos, antes mesmo de pensar na história que ali se vai desenrolar.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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