Nos últimos dez anos, o anime deixou de ser um género de nicho para se tornar num dos produtos culturais mais consumidos a nível mundial, e há um motivo concreto para isso. Esse crescimento não aconteceu por acaso. Grande parte do mérito está na enorme diversidade de géneros disponível atualmente, que vai muito além da ação e da fantasia que durante anos definiram a imagem do anime no Ocidente.
10Rascal Does Not Dream of Bunny Girl Senpai
A premissa desta série assenta num conceito pouco habitual, o chamado síndrome da puberdade, um fenómeno que faz com que os conflitos emocionais típicos da adolescência se manifestem de formas literalmente sobrenaturais. É este fenómeno que leva Sakuta a cruzar-se, numa biblioteca, com Mai, uma atriz popular e colega de escola, vestida de coelhinha e, ao que tudo indica, invisível para todas as outras pessoas.
A partir desse encontro, a série constrói uma relação romântica que se desenvolve com um cuidado pouco comum no género. Em vez de recorrer a mal-entendidos artificiais só para prolongar a tensão entre os protagonistas, Rascal Does Not Dream of Bunny Girl Senpai (Seishun Buta Yarou wa Bunny Girl Senpai no Yume o Minai) deixa que Sakuta e Mai comuniquem entre si de forma madura, mesmo quando os problemas que enfrentam são bastante mais complexos do que os de um romance escolar comum.
Ao longo dos arcos seguintes, a história alarga-se a outras personagens que também vivem versões diferentes deste síndrome, sem nunca perder de vista a relação central entre Sakuta e Mai. É essa combinação entre fantasia emocional e romance bem construído que continua a fazer desta série uma das mais subestimadas da última década, muitas vezes ofuscada por títulos com marketing mais agressivo.
9Takt Op. Destiny
Poucas séries de ficção científica arriscaram tanto na sua premissa como Takt Op. Destiny, que chegou ao mercado sem grande destaque mediático, apesar de trazer uma ideia verdadeiramente original, dar à música um papel central, tanto na construção do mundo como nos conflitos que o atravessam. Depois de criaturas alienígenas conhecidas como D2 invadirem a Terra, os concertos ao vivo passam a ser proibidos, já que estas entidades são atraídas pelo som.
É nesse contexto que conhecemos Takt, um jovem pianista talentoso que atravessa o país ao lado de Destiny, uma guerreira nascida da tragédia e com uma força fora do comum. A dinâmica entre os dois personagens serve de ponto de partida para explorar temas como perda, propósito e o poder transformador da arte, algo pouco habitual num anime de ação.
O sistema de combate da série reflete essa mesma ideia. Maestros como Takt comandam lutadores sobrenaturais chamados Musicart, cujas habilidades derivam diretamente de composições clássicas, funcionando como a única defesa eficaz da humanidade contra os D2. Mesmo tendo passado despercebida a muitos espectadores, a forma como Takt Op. Destiny junta música clássica e ação torna-a numa das séries mais originais da década.
8Kaguya-Sama Love Is War
Poucas comédias românticas conseguiram um equilíbrio tão bem conseguido entre humor e desenvolvimento de personagens como Kaguya-sama Love Is War. A premissa é simples, Kaguya Shinomiya e Miyuki Shirogane sentem uma atração evidente um pelo outro, mas nenhum dos dois está disposto a admiti-lo primeiro, por receio de ficar numa posição de desvantagem perante o outro.
Essa recusa mútua transforma o romance numa verdadeira guerra psicológica, cheia de planos cada vez mais elaborados e ridículos, pensados apenas para forçar o outro a dar o primeiro passo. Cada episódio funciona quase como um confronto autónomo, com estratégias próprias, reviravoltas inesperadas e um vencedor claramente definido no final, o que dá à série um ritmo cómico muito particular.
Apesar dessa estrutura quase de jogo, a relação entre Kaguya e Miyuki evolui de forma gradual e coerente ao longo da história, sem nunca parecer forçada. Grande parte do encanto da série está precisamente em ver os dois protagonistas complicarem tudo desnecessariamente, em vez de simplesmente assumirem aquilo que já é óbvio para o público.
7Vinland Saga
Vinland Saga começa como uma história de vingança relativamente convencional, mas rapidamente se revela muito mais ambiciosa do que isso. Depois de o lendário viking Thors ser assassinado, o seu filho Thorfinn junta-se ao bando de mercenários responsável pela sua morte, com um único objetivo, um dia derrotar em duelo o líder do grupo, Askeladd.
Ao crescer entre os homens que lhe tiraram tudo, Thorfinn transforma-se num guerreiro implacável, moldado pela raiva e pela violência que testemunha diariamente. Durante boa parte da narrativa, a série funciona quase como um retrato cru da vida viking, sem romantizar a brutalidade que a acompanha.
É precisamente essa base que torna a viragem da história tão poderosa. Vinland Saga transforma-se, com o tempo, numa reflexão sobre perdão e redenção, desafiando tudo aquilo em que Thorfinn acreditava durante anos. O momento em que o protagonista compreende que não tem inimigos é um dos mais marcantes de todo o anime histórico produzido na última década, e ajuda a explicar por que razão a série é tantas vezes apontada como um exemplo raro de consistência do início ao fim.
6Horimiya
Grande parte das séries de romance escolar constrói praticamente toda a temporada à volta da tensão que antecede o primeiro beijo ou a primeira confissão. Horimiya inverte essa lógica, Hori e Miyamura começam a namorar relativamente cedo na história, o que retira o foco da tensão romântica e o coloca noutro lugar, mais raro no género, os desafios reais de manter uma relação a funcionar no dia a dia.
Essa escolha só resulta porque a química entre os dois protagonistas é genuinamente convincente. Hori e Miyamura complementam-se de forma natural, sem os exageros típicos de outros casais deste tipo de história, e as suas interações parecem mais próximas da realidade do que as da maioria dos protagonistas românticos do género.
Ao tratar esta relação com maturidade, sem recorrer a mal-entendidos artificiais para criar conflito, Horimiya acaba por oferecer uma alternativa refrescante à fórmula tradicional do romance escolar, e talvez seja precisamente essa simplicidade bem executada que a torna tão memorável.
5Solo Leveling
Solo Leveling parte de uma ideia já bastante explorada no género das fantasias de poder, mas distingue-se pela forma como a executa. O protagonista, Sung Jinwoo, começa literalmente no fundo da tabela, sendo considerado o caçador mais fraco de toda a humanidade. É a partir dessa posição que a história constrói toda a sua progressão, com Jinwoo a tornar-se gradualmente mais forte à medida que completa missões, ganha experiência e sobe de nível, num sistema que recorda diretamente a lógica dos videojogos.
Adaptada do popular webtoon coreano escrito por Chugong, a série mantém essa mesma sensação de progressão constante, sem nunca deixar que o crescimento do protagonista elimine por completo a sensação de perigo. Jinwoo continua a cruzar-se com inimigos capazes de o testar até ao limite, o que dá à sua evolução um peso dramático que muitas histórias semelhantes acabam por perder a meio do percurso.
A isso soma-se uma qualidade de animação pouco comum neste tipo de adaptação, produzida pela A-1 Pictures, com coreografias de combate particularmente cuidadas. Essa combinação entre uma premissa simples e uma execução visual acima da média ajuda a explicar por que razão Solo Leveling se tornou, em tão pouco tempo, uma referência incontornável entre os animes de ação mais recentes.
4Made in Abyss
À primeira vista, Made in Abyss parece seguir a fórmula clássica da aventura de amadurecimento, com protagonistas jovens e um objetivo claro pela frente. A história segue Riko, uma jovem exploradora de cavernas determinada a chegar ao fundo do Abismo para encontrar a mãe desaparecida, uma exploradora lendária cujo destino permanece envolto em mistério.
Essa aparência inicial é, no entanto, enganadora. À medida que Riko avança pelas camadas do Abismo, a série revela algumas das imagens mais perturbadoras já vistas em anime, contrastando deliberadamente com o tom aparentemente inocente das primeiras cenas. Esse contraste entre beleza visual e horror crescente é, aliás, um dos elementos mais discutidos por quem já viu a série.
A construção do mundo é praticamente impecável, com o próprio Abismo a funcionar quase como uma personagem à parte, escondendo consequências cada vez mais aterradoras atrás da sua aparente beleza. Ao esbater a fronteira entre aventura fantástica e horror corporal, Made in Abyss constrói um universo que parece inquietantemente credível, e que continua a atrair novos espectadores muito depois da sua estreia.
3Chainsaw Man
Poucas adaptações recentes chegaram com tanta expectativa como Chainsaw Man, e ainda assim a série conseguiu superar praticamente todas as previsões. Parte desse sucesso deve-se à qualidade técnica das suas cenas de ação, amplamente elogiadas desde a estreia, mas o verdadeiro trunfo da obra está noutro sítio, na forma como subverte convenções bem conhecidas do género shonen sem recorrer a reviravoltas gratuitas apenas para surpreender o público.
Grande parte dessa originalidade nasce do próprio sistema de poder da história. O medo funciona como base para tudo o resto, com os Demónios a ganharem força a partir das ansiedades e fobias da humanidade. Essa ideia permite transformar receios do quotidiano, muitas vezes banais, em ameaças sobrenaturais completamente imprevisíveis.
O resultado é uma série que consegue manter uma sensação constante de perigo ao longo de toda a história, sem depender apenas da violência gráfica para impressionar. É essa combinação entre conceito original e execução cuidada que ajuda a justificar o estatuto que Chainsaw Man conquistou junto dos fãs de anime nos últimos anos.
2Cyberpunk: Edgerunners
Adaptar um videojogo de sucesso para anime é, historicamente, uma tarefa arriscada, com mais fracassos do que acertos. Cyberpunk: Edgerunners é uma das raras exceções a essa regra, ao conseguir criar uma história original ambientada em Night City, antes dos acontecimentos de Cyberpunk 2077, sem depender diretamente do enredo do jogo para funcionar.
A série acompanha David Martinez à medida que este entra no submundo criminoso de Night City, depois de um encontro decisivo com uma jovem misteriosa chamada Lucy. Ao longo de apenas dez episódios, Cyberpunk: Edgerunners consegue construir uma narrativa intensa sobre amor, ambição, ganância e tragédia, sem qualquer sensação de pressa ou de conteúdo desperdiçado.
A animação enérgica do Studio Trigger dá vida a Night City de uma forma particularmente marcante, enquanto a narrativa explora, com bastante seriedade, o que significa manter a humanidade num mundo dominado pela tecnologia e pelo poder das grandes corporações. É esse equilíbrio entre espetáculo visual e profundidade temática que torna esta série uma referência tão citada sempre que se fala em boas adaptações de videojogos.
1Frieren: Beyond Journey’s End
A maior parte das histórias de fantasia termina exatamente onde Frieren: Beyond Journey’s End começa, depois da derrota do vilão principal e do regresso triunfante dos heróis a casa. A série segue Frieren, uma maga élfica que ajudou a derrotar o Rei Demónio ao lado de um grupo lendário de companheiros, numa altura em que a aventura já parece ter chegado ao fim.
Para Frieren, cuja vida se estende por séculos, essa jornada é inicialmente encarada como pouco mais do que mais um capítulo passageiro. É só depois de os seus companheiros humanos começarem a envelhecer e a desaparecer que ela percebe, tarde demais, o quanto essas relações significaram realmente para ela, um tema que atravessa toda a série de forma cada vez mais evidente.
Ao percorrer novamente partes da sua antiga jornada, agora sozinha, Frieren transforma-se numa reflexão cuidada sobre memória, tempo e sobre o que significa construir ligações verdadeiramente importantes ao longo de uma vida limitada. Mesmo bebendo claramente da tradição do anime de fantasia clássico, a série trouxe algo genuinamente novo ao género, e ajuda a explicar por que razão continua a ser apontada como uma das produções mais marcantes dos últimos anos.









