A câmara aproxima-se do prato, o vapor sobe devagar, alguém dá a primeira garfada e os olhos arregalam. É o momento clássico do anime de culinária, e funciona sempre. Mas há um grupo de séries que vai muito mais longe do que isso.
10Delicious in Dungeon
Numa masmorra cheia de monstros, um grupo de aventureiros começa a cozinhá-los para sobreviver. Em papel, parece uma premissa absurda criada apenas para ser diferente. Na prática, é uma das abordagens mais rigorosas à culinária que o anime já produziu.
O que o Studio Trigger fez com o mangá de Ryoko Kui, estreado em janeiro de 2024 na Netflix, foi pegar numa ideia completamente louca e levá-la completamente a sério. O cozinheiro Senshi não trata os monstros como ingredientes genéricos, estuda-os. Percebe o que cada criatura comeu durante a vida, como viveu, em que condições cresceu, e de que forma tudo isso se traduz em sabor e textura quando vai ao lume. É o mesmo raciocínio que um bom chef aplica a um produto de época ou a um animal criado em liberdade, transportado para um contexto de fantasia.
O resultado é uma série que, episódio após episódio, ensina o espectador a olhar para a comida como o resultado de um ecossistema. Nada aparece do nada. Tudo tem uma origem, uma lógica, uma razão para ter o sabor que tem. É esse o verdadeiro argumento de Delicious in Dungeon, escondido debaixo da aventura e da comédia.
9Kakuriyo: Bed & Breakfast for Spirits
Aoi chega ao reino dos espíritos sem qualquer vantagem. Não tem poderes, não tem estatuto, não tem ninguém do seu lado. A solução que encontra é abrir um restaurante, e é essa decisão que estrutura toda a série de 2018.
O que torna Kakuriyo interessante é a forma como trata a cozinha como uma habilidade que exige escuta antes de qualquer técnica. Aoi não chega a uma mesa e serve o que sabe fazer. Primeiro observa. Percebe o que aquele espírito quer, o que o seu corpo precisa, o que o pode surpreender. Só depois é que cozinha. É uma abordagem que parece óbvia quando se descreve assim, mas que a maioria das pessoas, e de outros anime, ignora completamente.
A comida funciona aqui como diplomacia. Como forma de ultrapassar preconceitos, de ganhar confiança e de provar que o valor de uma pessoa não depende de onde veio nem de quanta magia consegue invocar. Cada prato que Aoi serve é também um argumento sobre competência e respeito.
8Campfire Cooking in Another World with My Absurd Skill
A maior parte dos isekai de culinária tem um protagonista que transforma o mundo de fantasia através de receitas espetaculares que ninguém alguma vez imaginou. Campfire Cooking in Another World with My Absurd Skill, produzido pelo estúdio MAPPA e estreado em janeiro de 2023, faz exatamente o oposto.
Mukohda não cozinha para impressionar. Não tenta reinventar a gastronomia num mundo medieval nem criar pratos que deixem os locais sem palavras. Cozinha porque comer bem no final de um dia difícil é uma das poucas coisas que vale sempre a pena. Molho de soja, ramen instantâneo, condimentos de supermercado, ingredientes completamente banais para qualquer japonês moderno, são vistos pelas criaturas do mundo de fantasia como produtos raros e extraordinários.
É essa inversão que faz a série funcionar a um nível diferente. Ao ver um dragão ou um lobo mágico a ficar completamente rendido a um pacote de ramen, o espectador começa a perceber quanto do que come no dia a dia é, na verdade, o resultado de séculos de história, comércio e cultura alimentar. A banalidade dos ingredientes é uma ilusão e Campfire Cooking trata de a desfazer com humor e sem fazer grande alarido disso.
7Silver Spoon
Hiromu Arakawa ficou conhecida pelo mundo inteiro por causa de Fullmetal Alchemist. Silver Spoon é uma obra completamente diferente, mais pequena, mais quieta, mais desconfortável em certos momentos, e é provavelmente a série mais honesta sobre comida que o anime alguma vez produziu.
A A-1 Pictures adaptou o mangá em duas temporadas, transmitidas entre 2013 e 2014, e o argumento gira em torno de Hachiken, um adolescente da cidade que se matricula numa escola agrícola sem perceber muito bem o que vai encontrar. O que encontra, entre outras coisas, é um porco. Que cria. Que alimenta todos os dias. E que sabe, desde o início, que vai ser abatido ao fim de alguns meses.
A série não resolve esse dilema com uma resposta reconfortante. Não diz que está bem porque é a natureza, nem que é errado porque o animal sofre. Deixa Hachiken, e o espectador, a lidar com a contradição, sem rede. É exatamente o tipo de conversa que a maioria dos conteúdos sobre gastronomia evita com cuidado, preferindo ficar pela estética do prato sem perguntar como chegou lá.
6Restaurant to Another World
A premissa é simples, um restaurante ocidental em Tóquio tem uma porta especial que, ao sábado, abre para um mundo de fantasia. Dragões, elfos, membros da realeza e demónios descobrem pratos como estufado de carne, omurice e bolo de chocolate, e experienciam-nos sem qualquer memória emocional associada.
É essa ausência de memória que torna Restaurant to Another World numa série inteligente. Quando um humano come estufado de carne, traz consigo décadas de associações, o cheiro da cozinha da infância, a primeira vez que o provou, as pessoas com quem estava. Um dragão que prova o mesmo prato pela primeira vez não tem nada disso. O que sente é apenas o sabor, puro, sem filtros.
Ao construir personagens que chegam à comida sem história, a série consegue algo difícil: devolver ao espectador a sensação original de um prato familiar, como se o provasse pela primeira vez. É um truque narrativo muito bem executado, e que diz algo verdadeiro sobre a forma como a memória e o hábito transformam, e às vezes obscurecem, aquilo que realmente estamos a comer.
5Sweetness and Lightning
Produzido pelo TMS Entertainment e transmitido em 2016, Sweetness and Lightning é um anime de 12 episódios sobre um pai viúvo e a filha pequena que aprendem a cozinhar juntos depois de perderem a mãe. A descrição parece simples. A série não é.
O que Sweetness and Lightning faz, episódio após episódio, é mostrar que cozinhar pode ser um acto de luto. Cada refeição que o pai e a Tsumugi preparam juntos carrega o peso do que ficou por dizer e da pessoa que já não está. A comida torna-se o mecanismo através do qual uma família aprende a continuar a ser família depois de perder o seu centro.
Há um detalhe na série que resume tudo isto, a Tsumugi não avalia a comida pelo sabor. Avalia pela presença de quem a fez. Um onigiri malfeito, cheio de imperfeições, preparado pelo pai enquanto lhe presta atenção, vale muito mais para ela do que qualquer prato tecnicamente irrepreensível. É uma observação sobre a infância que é completamente verdadeira e que os adultos tendem a esquecer.
4Rokuhoudou Yotsuiro Biyori
Quatro homens gerem uma casa de chá tradicional japonesa. Não há conflitos dramáticos, não há rivais culinários, não há competições. O que há é uma série de 2018 que observa com muita atenção o que acontece quando uma pessoa exausta, sozinha ou bloqueada entra num espaço concebido para a fazer sentir recebida.
Valentino, Tougoku, Nagae e Nakao não servem apenas chá e comida. Observam cada cliente que entra, a forma como se senta, o que pede, o que parece estar a carregar, e adaptam toda a experiência ao que percebem. Não é serviço, é leitura de pessoas. E é essa atenção que transforma uma simples xícara de chá em algo que faz diferença no dia de alguém.
Quem vê Rokuhoudou Yotsuiro Biyori começa inevitavelmente a reparar em coisas que antes passavam despercebidas, com quem come, em que ambiente, se está realmente presente ou apenas a engolir por obrigação. É um anime discreto, mas que fica.
3Oishinbo
Baseado no mangá de Tetsu Kariya e Akira Hanasaki, publicado desde 1983, Oishinbo tem uma posição singular no universo dos anime de culinária, trata a gastronomia como uma disciplina académica, com a mesma seriedade com que se estuda história ou filosofia.
O protagonista Shiro Yamaoka é jornalista gastronómico, e a série segue-o pelos quatro cantos do Japão em encontros com chefs, produtores, críticos e pessoas comuns. O que vai documentando ao longo do caminho é um arquivo de ingredientes regionais, métodos de preparação tradicionais e filosofias culinárias que existiam muito antes de qualquer influência ocidental chegar ao país. Oishinbo defende que saber sobre comida é uma forma de conhecer a própria cultura, e que perder esse conhecimento é perder algo que não se recupera facilmente.
Há ainda a dimensão pessoal, representada no conflito constante entre Shiro e o pai, uma figura de autoridade culinária com quem tem uma relação de tensão profunda. Cada debate sobre comida acaba por ser também uma discussão sobre dívidas, heranças e o peso daquilo que as gerações anteriores nos deixam.
2Today’s Menu for the Emiya Family
Animado pelo estúdio ufotable, este spin-off de Fate/Stay Night coloca figuras épicas da mitologia e da história, incluindo o Rei Artur, na cozinha de Shiro Emiya a preparar receitas domésticas japonesas. O humor vem do absurdo do contraste, personagens de escala mítica completamente rendidas a um prato de nikujaga ou a uma tigela de arroz bem temperado.
Mas debaixo da comédia há algo mais interessante. A série funciona como um guia sazonal de cozinha japonesa, mostrando quais os ingredientes que estão no pico em cada mês e o que as preparações tradicionais fazem com eles. A ideia central é que a sazonalidade não é uma tradição cultural arbitrária, é simplesmente o reconhecimento de que os ingredientes têm um momento certo, e que comer perto desse momento é a base de qualquer prato realmente bom.
É uma lição simples, mas que a maioria das pessoas ignora completamente quando tem acesso a supermercados que vendem tudo o ano inteiro.
1Isekai Izakaya: Japanese Food from Another World
A porta das traseiras de um izakaya em Tóquio abre para uma cidade medieval de inspiração europeia. Os habitantes descobrem a comida de pub japonesa, edamame, yakitori, oden, tempura, e tornam-se clientes habituais. A série de 2018, transmitida pela WOWOW, é em muitos aspectos o inverso de Restaurant to Another World, mas partilha com ela algo fundamental, a ideia de que a comida simples, bem feita, chega a toda a gente.
O que distingue Isekai Izakaya é a atenção ao detalhe técnico numa comida que ninguém normalmente trata com esse rigor. O izakaya não serve alta gastronomia, serve petiscos para acompanhar bebida e conversa. Mas a temperatura do dashi é controlada com precisão, o tempo de fritura do frango é cronometrado, o equilíbrio entre sal e umami num prato aparentemente simples é trabalhado com todo o cuidado.
As personagens que provam tudo isto pela primeira vez descrevem o que sentem com uma clareza desarmante, precisamente porque ainda não aprenderam as convenções de como se fala sobre comida. Não fingem sofisticação. Dizem apenas o que provam. E é essa honestidade que faz a série funcionar.









