
O Studio Kai entrou em situação de insolvência, algo que já em 2023 já tínhamos previsto que iria acontecer. A notícia, divulgada no boletim oficial do governo japonês (Kanpō) na edição de 13 de abril de 2026, confirmou o que os números já antecipavam há algum tempo, o estúdio de animação subsidiário da ADK Emotions fechou o ano fiscal de 2025 com um prejuízo líquido de 565 milhões de ienes, cerca de 3,5 milhões de dólares, o que significa que os seus passivos excedem agora o total dos seus ativos.
O que torna a situação ainda mais desconcertante é o historial recente do estúdio. O Studio KAI foi o responsável pela animação das temporadas 2 e 3 de Uma Musume Pretty Derby, uma das franquias anime mais lucrativas dos últimos anos e pela adaptação de Sentenced to Be a Hero, um dos títulos mais comentados de 2026. Apesar da qualidade reconhecida das suas produções, os números nunca chegaram a fechar no verde. Desde a sua fundação, em junho de 2019, o estúdio nunca registou um único exercício com lucro.
Sete anos a acumular dívidas
O percurso financeiro do Studio KAI foi sempre um encadeamento de perdas progressivas. No primeiro exercício fiscal, que terminou em dezembro de 2019, o estúdio já registava um prejuízo de cerca de 402 milhões de ienes. Em 2020, a perda foi de 165 milhões de ienes. O défice acumulado ao longo de 2024 rondava os 1,47 mil milhões de ienes.
No ano passado, a perda foi de 248 milhões de ienes. Em 2025, esse número mais do que duplicou para 565 milhões, o que elevou o cenário de défice crónico a uma situação de insolvência formal.
O Studio KAI, sediado em Suginami, Tóquio, e com 133 trabalhadores em dezembro de 2025, apostou sempre num modelo de produção maioritariamente interna, com animadores contratados a tempo inteiro, uma opção que garante consistência e qualidade, mas que também implica custos fixos elevados num setor onde as margens são historicamente apertadas. Com projetos como Sunshine More Brilliant Than the Sun, a nova versão anime de Hell Teacher Nube e um curta-metragem especial para o 150.º aniversário da Shimadzu Seisakusho, a produção nunca parou, mas os rendimentos gerados ficaram aquém das necessidades operacionais.

O paradoxo de ter sucessos sem ter lucros
Este é, talvez, o aspeto mais difícil de explicar a quem está fora da indústria. Uma Musume Pretty Derby, que o Studio KAI animou nas suas segunda e terceira temporadas, chegou a ser um dos anime mais vendidos em Blu-ray de toda a história do formato no Japão. E ainda assim, o estúdio responsável pela sua animação nunca viu esse sucesso refletido nas suas contas.
A razão está na forma como a indústria japonesa de anime funciona. Os estúdios de animação recebem tipicamente uma taxa fixa de produção e não têm qualquer participação nos direitos de propriedade intelectual, nem nas receitas de merchandising, jogos ou streaming geradas pelos títulos que animam. Os lucros escoam para os comités de produção, que reúnem distribuidores, editoras e outros parceiros, enquanto os estúdios ficam com os custos e sem fatia dos ganhos.
2025 foi o terceiro ano consecutivo a registar um aumento de falências e encerramentos de estúdios de animação no Japão, mesmo com as receitas globais da indústria em máximos históricos. Em 2024, 60% das empresas que produziam anime registaram quebras de lucro ou prejuízos, ainda assim, o mercado continuou a crescer para quem detém os direitos.
O que acontece a seguir
A insolvência não significa necessariamente encerramento imediato. O desfecho pode variar entre uma reestruturação com continuidade sob nova gestão e uma dissolução completa, dependendo das negociações com credores e de eventuais decisões judiciais.
Nem o Studio KAI nem a ADK Emotions emitiram qualquer comunicado oficial sobre o processo ou sobre o impacto nos projetos em curso e futuros. O relatório financeiro publicado no boletim oficial é lacónico, não inclui qualquer plano de contingência, explicação da direção ou indicação de medidas corretivas.
O que fica em aberto é a situação de títulos já anunciados. A segunda temporada de Sentenced to Be a Hero, confirmada em março de 2026 no AnimeJapan, foi produzida na sua primeira temporada pelo Studio KAI, e ainda não há qualquer indicação oficial sobre se o estúdio continuará envolvido. Há também quem aponte para o facto de a ADK Holdings, empresa-mãe da ADK Emotions, ter sido adquirida pela editora sul-coreana Krafton por 75 mil milhões de ienes em 2025, o que poderá representar uma almofada financeira capaz de absorver as perdas da subsidiária.
O boletim oficial japonês não costuma publicar estes dados sem que haja implicações concretas. A indústria do anime está a assistir.
O Studio KAI trabalhou em animes como Uma Musume Pretty Derby 2, 7SEEDS, The New Prince of Tennis: Hyotei vs Rikkai Game of Future, Cagaster of an Insect Cage, Phantasy Star Online 2: Episode Oracle, 23-ji no Saga Meshi Anime, Skeleton Knight in Another World e Super Cub.










Estúdio MT bom, bons animes