
No Japão, o mês de março ficou marcado por um movimento que chamou a atenção de todo o país, mais de duas mil pessoas reuniram-se em frente ao Parlamento em Tóquio numa manifestação pacifista organizada por fãs de anime e mangá. Semanas depois, alguém teve uma ideia bem diferente, e bem menos popular.
Sob o pseudónimo de 防人竜斗 (Sakamori Ryuto), um homem nascido em 1981 e residente na prefeitura de Miyazaki anunciou a realização de uma “Manifestação Otaku a Favor da Guerra“. O evento foi convocado para o dia 18 de abril de 2026 e, segundo o próprio organizador, destina-se apenas ao espaço online e das redes sociais, porque vive longe e “a participação presencial é incerta”.
No perfil que mantém na plataforma Note.com, onde se descreve como “comentarista militar amador” e “especialista em anime e mangá militares” com um gosto declarado pelo anime Black Lagoon, Sakamori publicou o anúncio a 12 de abril. O argumento central é que a sociedade japonesa sofre de um excesso de pacifismo, o que os japoneses chamam de 平和ボケ (heiwa boke, ou “entorpecimento pela paz”), e que as forças mediáticas de esquerda estariam a usar a comunidade otaku como instrumento de propaganda antibelicista. Para ele, isso equivale a uma “traição à nação”.
O texto pede aos “verdadeiros patriotas otakus” que utilizem hashtags como #戦争賛成デモ e #オタクによる戦争賛成デモ nas redes sociais, e invoca o apoio às ações militares externas como forma de travar o avanço do comunismo. A ligação ao contexto político japonês é evidente, o país vive há meses um debate aceso em torno das propostas de revisão da Constituição, nomeadamente do artigo 9.º, que proíbe o uso da força como meio de resolução de conflitos internacionais.
O que se seguiu não foi bem uma revolução patriótica. Os fóruns japoneses rapidamente desmontaram a iniciativa, e a ironia não tardou a instalar-se. Vários utilizadores questionaram a própria lógica do evento, se a manifestação é apenas online, pode chamar-se manifestação? Outros fizeram cálculos sarcásticos sobre a eventual adesão, “talvez apareçam seis participantes e todos fiquem expostos”, e não faltaram comentários a questionar onde estava o verdadeiro patriotismo num homem que convoca uma marcha pró-guerra a partir do conforto de casa.
Os comentários mais afiados puseram o dedo na contradição mais óbvia, alguém que defende a guerra com tanto entusiasmo deveria talvez dar o exemplo. “Se tanto queres a guerra, vai para a Ucrânia e junta-te como mercenário”, escreveu um utilizador. Outros perguntaram se Sakamori tenciona alistar-se nas Forças de Autodefesa do Japão, ou se prefere que sejam outros a lutar e a morrer enquanto ele escreve em frente ao computador.
O episódio ganha contornos ainda mais curiosos quando enquadrado no que aconteceu semanas antes em Tóquio. A manifestação anti-guerra organizada pela comunidade otaku em março reuniu mais de dois mil participantes, mangakás, seoyuu e fãs, com cartazes dos seus personagens favoritos, glowsticks coloridos e um ambiente que, segundo relatos da imprensa japonesa, contrastou visivelmente com o tom habitualmente austero dos protestos políticos. O jornal Akahata descreveu o evento como algo que “reconfigurou visivelmente a imagem do ativismo”.
A tentativa de resposta de Sakamori a esse movimento acabou por ter o efeito contrário, em vez de mobilizar, tornou-se o alvo de chacota generalizada da internet japonesa. Até ao momento em que este artigo foi escrito, o evento estava ainda agendado para 18 de abril.









