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Square Enix está a perder uma geração inteira de jogadores e um ex-executivo explica porquê

Final Fantasy XIV: Endwalker já tem data

A Square Enix publicou os seus resultados financeiros para o ano fiscal que terminou em março de 2026, e a leitura não foi animadora. As vendas líquidas caíram 8,3% em relação ao ano anterior, atingindo os 297,7 mil milhões de ienes, com o segmento de jogos para consola e PC a recuar 16,3%. Para Jacob Navok, que liderou o desenvolvimento de negócios globais na Square Enix Holdings, os números não são uma surpresa e o problema vai muito além de um ano difícil.

Navok partilhou a 21 de maio de 2026 uma longa análise no X sobre os resultados da empresa. A sua avaliação foi directa, comparados com o desempenho da Capcom e da Konami, os resultados da Square Enix são “vergonhosos”, esta é a palavra que usou, com as previsões consideradas “tépidas” e o preço das acções a cair de uma máxima de cerca de 3.800 ienes no ano anterior para os 2.476 ienes.

Mas o argumento central de Navok não é só financeiro. Segundo ele, o problema mais profundo é que a empresa não está a conseguir levar as suas propriedades intelectuais a uma nova geração de jogadores. E isso, avisa, vai corroer o seu futuro a prazo.

Não falta conhecimento, falta vontade

O que torna a posição de Navok particularmente interessante é que ele não está a dizer que a Square Enix é incapaz de fazer o que é preciso. Pelo contrário, admite explicitamente que a empresa percebe de live service, precisamente porque tem provas disso. O Final Fantasy XIV está activo há mais de uma década e continua a crescer. O Final Fantasy XI aproxima-se dos 25 anos de actividade. A capacidade técnica existe.

O que Navok questiona é a ambição de usar essa capacidade para alcançar audiências novas. No seu raciocínio, a Square Enix conhece o modelo, mas aplica-o apenas em contextos já estabelecidos, sem arriscar levá-lo a territórios diferentes. A titulo de exemplo, no seu post no X, Navok imagina o potencial de uma colaboração entre K-pop Demon Hunters e Final Fantasy, um exercício hipotético que serve para ilustrar o tipo de cruzamento cultural que, na sua opinião, a marca deveria explorar mas não explora.

Para reforçar o argumento, Navok recorre a dois exemplos externos. O primeiro é o Magic: The Gathering, que conseguiu expandir a sua relevância muito para além do jogo de cartas original, criando uma presença cultural transversal. O segundo é o próprio Kingdom Hearts, uma série da Square Enix que demonstrou exactamente como o universo de Final Fantasy pode cruzar-se com outras propriedades e resultar, e que, na perspectiva de Navok, poderia servir de modelo para algo mais ambicioso.

Navok vai ainda mais longe e propõe que o Final Fantasy XIV, enquanto plataforma técnica, podia ser a base para construir uma experiência free-to-play que se actualizasse continuamente através de colaborações modernas. O problema, diz ele, não é de capacidade, é de cultura interna.

“Acho que a Square Enix está tão habituada a ser lenta que não consegue imaginar como seria a vida se agisse depressa. Há muita burocracia interna; o trabalho do CEO é tomar uma decisão e cortar essa burocracia para que a inovação floresça”, escreveu.

Yoshi-P, o homem que podia ter feito a diferença

Num ponto específico do texto, Navok reflecte sobre Naoki Yoshida, o produtor e director por trás da reviravolta do Final Fantasy XIV e de Final Fantasy XVI, como alguém que teria tido o perfil certo para liderar o tipo de transformação que está a descrever. “Yoshida teria sido óptimo a conseguir isto”, escreve Navok, referindo-se à ideia do Final Fantasy XIV como base de uma experiência livre e colaborativa.

Em fevereiro de 2025, Yoshida saiu do conselho de administração da Square Enix, mantendo o cargo de membro do comité executivo. A mudança surgiu no contexto de uma reestruturação interna da empresa, embora o próprio Yoshida tivesse manifestado em 2023, numa entrevista ao jornal neerlandês NRC, que preferia fazer jogos a ocupar funções de gestão: “Não quero fazer parte do conselho. É muito mais divertido simplesmente fazer jogos”.

A análise de Navok encaixa num conjunto mais alargado de preocupações que têm sido expressas por diferentes vozes sobre a direcção da Square Enix. O próprio produtor de Dragon Quest, Ryutaro Ichimura, que deixou a empresa em 2023, tinha dito que a Square Enix estava demasiado focada em jogos “seguros”.

Para Navok, dois anos atrás já tinha identificado o que considera ter sido um dos maiores erros da empresa, ter deixado a MiHoYo criar o Genshin Impact em vez de a Square Enix o ter feito ela própria. Uma franquia de RPG de acção free-to-play, com colaborações e actualizações constantes, que conquistou uma geração de jogadores jovens em todo o mundo. Exactamente o território que a Square Enix, com o seu catálogo e o seu historial técnico, estava em posição privilegiada para ocupar.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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