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A bolha do anime vai rebentar? Produtor japonês explica o que está a acontecer

O CEO da ARCH e presidente da Graphinica traçou um retrato preocupante do setor: os orçamentos disparam no topo, os estúdios mais pequenos afundam-se, e o caminho do meio está a desaparecer.

Rin Kurusu screenshot Believer draw manga (2)

Durante décadas, a indústria anime japonesa funcionou com uma lógica relativamente estável, estúdios pequenos cresciam, acumulavam reputação, ganhavam poder negocial e, eventualmente, conseguiam sentar-se à mesa dos grandes. Esse percurso está a tornar-se cada vez mais difícil, ou, em muitos casos, impossível.

Nao Hirasawa, CEO da empresa de produção ARCH e presidente do estúdio (Record of Ragnarok, Expelled from Paradise, Hello World), partilhou recentemente com a ITmedia uma análise detalhada do estado atual da indústria. Os números que apresentou são difíceis de ignorar, um episódio pode hoje atingir os 300 milhões de ienes (cerca de 1,9 milhões de dólares), enquanto uma longa-metragem pode chegar aos 4 mil milhões de ienes, o equivalente a 25 milhões de dólares.

Não são valores para qualquer projeto. São o topo de uma estrutura que Hirasawa divide em três grandes ecossistemas, cada um com as suas regras, os seus orçamentos e as suas exigências.

Três mundos que já não comunicam entre si

O primeiro ecossistema é o das produções financiadas por empresas com sede no estrangeiro, com alcance global, o segmento mais caro e mais exigente em termos de apelo internacional. O segundo envolve plataformas de streaming e adaptações de IPs de videojogos de grande sucesso, onde os orçamentos cresceram em parte pela influência das plataformas digitais e pelo peso económico das franquias que adaptam. O terceiro é o território mais tradicional, o late night, o anime de fim de semana de manhã, e os filmes de estreia em salas, onde o mercado doméstico japonês continua a ser a principal referência.

O problema, segundo Hirasawa, não é a existência destes três mundos. É que a distância entre eles está a aumentar de forma acelerada, e as pontes que antes existiam estão a ceder.

Anteriormente, a menor disparidade entre orçamentos permitia que os estúdios transitassem de um ecossistema para outro com mais facilidade, produzia-se trabalho de qualidade, construía-se reputação, acumulava-se capital e credibilidade suficiente para participar nos comités de produção, as estruturas que detêm os direitos de autor e distribuem os lucros de longo prazo. Esse modelo sempre exigiu esforço, mas era viável. Hoje já não o é da mesma forma.

O problema do meio

A análise de Hirasawa aponta para um fenómeno que está a remodelar a indústria, o espaço intermédio está a desaparecer. Um estúdio que tente posicionar-se entre o anime doméstico de nicho e as produções de apelo global enfrenta riscos crescentes. O mercado japonês sozinho não cobre os custos de uma produção cara; e os critérios para atingir audiências globais são cada vez mais ditados por plataformas de streaming e pelas expectativas geradas por franquias de videojogos com receitas na ordem dos centenas de milhões de dólares.

Isto cria uma pressão que se manifesta em vários níveis. Os investidores partiram de certas expectativas sobre o custo e o tempo de produção de um anime, e essas expectativas já não correspondem à realidade. Quando os orçamentos se revelam insuficientes e os comités de produção se recusam a aumentá-los, são os estúdios que absorvem o défice, o que corrói as reservas que deveriam servir para crescer. Os estúdios subcontratados, que não participam nos comités de produção nem partilham das receitas de direitos de autor, são os mais afetados, registam vendas mais baixas, têm menos liquidez e ficam ainda mais vulneráveis.

Rin Kurusu screenshot Believer draw manga (3)

Fuga de talento e formação em colapso

As consequências desta estrutura não ficam pelos números. O setor tem registado um aumento da contratação agressiva entre estúdios, essencialmente, roubo de quadros, o que é sintomático de um ambiente cada vez mais competitivo e menos colaborativo. A NAFCA (Nippon Anime & Film Culture Association), a associação criada em 2023 para defender condições laborais na indústria, alertou para o facto de os estúdios estarem a investir cada vez menos em formação interna. O resultado é um recurso crescente a subcontratação no estrangeiro, e um recrutamento mais desesperado que dificilmente compensa a falta de preparação.

Hirasawa prevê que este processo de polarização se aprofunde até ao final da década. Os estúdios no topo do espetro vão crescer, apoiados em capital estrangeiro e em IPs de grande escala. Os estúdios na base vão ser forçados a escolher entre orçamentos modestos que permitem expressão criativa mais japonesa e de nicho, ou projetos de maior envergadura que implicam responder às expectativas de audiências globais e de financiadores externos.

O que fica menos claro é o que acontece a quem quiser fazer as duas coisas ao mesmo tempo, ou a quem, simplesmente, já não tiver escolha.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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