Lançado originalmente na Xbox Series e PC em abril de 2025 pela Compulsion Games, South of Midnight é um jogo de ação e aventura na terceira pessoa que chega agora à PlayStation 5, trazendo consigo um conto profundamente enraizado no folclore do sul dos Estados Unidos.
A história acompanha a jovem Hazel Flood durante e após um furacão que arrasa a sua cidade natal, Prospero. Quando a tempestade arrasta a sua casa com a mãe lá dentro, Hazel vê-se obrigada a atravessar territórios inóspitos numa corrida desesperada para a salvar.

Há algo de muito cativante na forma como a narrativa de South of Midnight é apresentada, recordando os contos de fadas pelo seu misticismo e pela forma como é contada. O jogo mergulha profundamente no folclore sulista, onde cada criatura, personagem ou mito (como por exemplo o Blind Man ou o Two-Toed Tom) funcionam como um reflexo das personalidades e dos traumas das figuras que a jovem vai conhecendo pelo caminho. As histórias abordam temas densos e maduros, como o luto, a violência, a escravatura e até a resiliência da cultura negra.
A narrativa ganha forma à medida que encontramos documentos com notas e relatos dos habitantes de prospera.
Na sua essência, estamos diante um jogo de plataformas que evoca a nostalgia dos títulos de aventura do início dos anos 2000. A jogabilidade assenta na Tecelagem, uma forma de magia que permite a Hazel interagir com a “Grande Tapeçaria” do mundo para reparar pontes, criar plataformas de luz ou purificar zonas corrompidas pelos Estigmas.

Ao longo das cerca de 10 horas de campanha, fica a sensação de que poderiam ter ido mais longe na diversidade do seu gameplay, explorando melhor as diferentes camadas do seu mundo. Ainda assim, o level design revela-se bem pensado, com elementos de perigo, como os espinhos, integrados de forma coerente na própria narrativa. É sobretudo nos capítulos finais que o estúdio arrisca mais na construção dos cenários, tornando-os mais desafiantes e interessantes de explorar. A introdução faseada de novas mecânicas também ajuda a manter a experiência envolvente, com Hazel a adquirir habilidades como planar, correr pelas paredes e até controlar o seu peluche, Crouton, o que lhe permite aceder a espaços mais apertados e alcançar locais anteriormente inacessíveis.
No entanto, o maior problema reside na simplicidade do combate. Apesar de ser possível melhorar as habilidades da Tecelã com os felpos espalhados pelos níveis, o sistema raramente alcança o seu auge nos confrontos contra inimigos comuns. Na prática, resume-se a um ciclo de atacar, esquivar e recorrer a habilidades mágicas, com as criaturas a repetir constantemente o mesmo padrão de ataque, o que dificilmente proporciona um desafio à altura. Em contraste, os combates contra os bosses destacam-se claramente. São mais criativos e memoráveis, exploram melhor os objetos mágicos da protagonista e os ambientes ao seu redor.

A direção artística de South of Midnight é a grande surpresa do jogo, com um estilo visual impressionante que faz lembrar o estilo de Tim Burton ou animações como Coraline, com o estúdio a recorrer a uma técnica que remete para o stop-motion, adicionando ainda mais magnetismo à obra. Os cenários apresentam uma beleza melancólica especial, recompensando quem gosta de apreciar paisagens com um toque de fantasia.
A banda sonora foi composta pelo músico francês Olivier Deriviere, conhecido pelo seu trabalho em títulos como Dying Light 2 Stay Human e A Plague Tale: Innocence.
Esta identidade artística é ainda fortemente reforçada pela banda sonora, uma peça crucial na forma como a atmosfera e a história do jogo é sentida. Inspirada nos sons tradicionais do blues e do folk, estabelece uma forte ligação com a ambiência do jogo e com a sua base cultural. As músicas surgem normalmente como um complemento da narrativa, ajudando a transmitir emoções, memórias e o peso das experiências das personagens. O próprio elenco de vozes foi muito bem escolhido, transmitindo de forma natural a personalidade e os sentimentos de cada personagem. A isto junta-se ainda um elemento inesperado, a presença de texto em português de Portugal, algo ainda raro, sobretudo tendo em conta a qualidade da tradução.
Como seria de esperar na PlayStation 5 o jogo consegue manter um desempenho estável e fluido na maioria do tempo, mesmo com algumas texturas mais simples e carregamentos pontuais ao longo da experiência.

South of Midnight afirma-se pela forma cuidada e impactante como retrata as emoções e a cultura sulista. Ainda que a exploração e o sistema de combate fiquem aquém do que poderiam oferecer em profundidade, o conjunto acaba por se destacar muito por força de uma direção artística cativante e de uma narrativa absolutamente memorável. Trata-se de uma experiência ambientada num universo de fantasia sombrio que será difícil de esquecer e que merece ser descoberta pela sua história e autenticidade criativa.












