
Terumi Nishii tem um currículo que fala por si, diretora-chefe de animação da primeira temporada de Jujutsu Kaisen, diretora de animação em Death Note e em JoJo’s Bizarre Adventure: Diamond Is Unbreakable, entre dezenas de outros títulos ao longo de mais de duas décadas de carreira. Quando fala sobre o estado da indústria anime, as pessoas ouvem e desta vez falou sobre IA na animação.
Numa publicação recente nas redes sociais, Nishii questionou publicamente as promessas feitas pela Aniplex de não recorrer à inteligência artificial nos seus projetos. A animadora afirma que vários estúdios de anime já utilizam ferramentas de IA generativa de forma discreta, storyboards assistidos por IA que imitam o estilo de criadores específicos, e geração automática de layouts iniciais que são depois refinados por diretores humanos. Tudo isto, segundo Nishii, acontece longe dos holofotes, precisamente para evitar uma reação negativa por parte dos fãs.
“Mesmo que a Aniplex afirme que não vai usar IA, será que os estúdios de produção que contrata podem realisticamente parar de a usar, especialmente quando já estão a pagar a empresas tecnológicas?”, questionou. Para Nishii, a Aniplex é, por natureza, uma empresa do lado dos produtores que está ativamente a impulsionar o desenvolvimento de IA com o objetivo de aumentar o volume de produção de anime, o que torna difícil acreditar nas suas declarações públicas. “Mais do que qualquer coisa, isso sugere que talvez não compreendam totalmente como os comités de produção funcionam na prática”, acrescentou.
O ceticismo de Nishii não é novo. Em fevereiro de 2023, o WIT Studio e a Netflix geraram uma polémica significativa ao lançar a curta-metragem The Dog and The Boy, que utilizava fundos gerados por IA. A Netflix justificou a decisão com a escassez de mão de obra na indústria, mas a reação nas redes sociais foi de forte rejeição por parte de artistas e fãs, que criticaram a desvalorização do trabalho humano e a falta de transparência nos créditos, o designer de fundo foi simplesmente creditado como “IA (+Humano)”, sem nome.
Vê aqui a Curta anime do WIT Studio com fundos gerados por IA
O que Nishii alerta agora vai além da controvérsia pontual. A sua preocupação central prende-se com o impacto a longo prazo na formação de novos talentos. Se os estúdios continuarem a integrar IA nos seus fluxos de trabalho e a priorizar a produção em massa, isso vai dificultar o desenvolvimento de animadores da nova geração, precisamente o recurso humano mais necessário para resolver o problema de falta de pessoal que a indústria enfrenta. Na prática, se as ferramentas automatizadas preencherem os fotogramas de animação, os jovens animadores perdem as oportunidades de prática essenciais para desenvolver as suas competências.
A animadora é uma das vozes mais ativas no debate sobre as condições de trabalho no anime e é cofundadora da NAFCA (Nippon Anime & Film Culture Association), associação criada em 2023 para melhorar as condições laborais na indústria. Não é a primeira vez que alerta para um cenário preocupante, já tinha avisado anteriormente que a sobrecarga de produções e os orçamentos mal geridos poderão levar a falências de estúdios nos próximos anos.
O debate sobre a IA no anime está longe de ser simples. De um lado, estúdios pressionados por calendários impossíveis e orçamentos apertados. Do outro, uma tradição artesanal que define o próprio valor cultural do anime e animadores que veem os seus empregos e o seu legado ameaçados em silêncio.








