A evolução da Gust com a série Blue Reflection deixa bem claro que a missão da produtora nipónica nunca passou por competir com os colossos do género JRPG. Desde os primeiros passos, a prioridade foi seguir uma premissa muito mais íntima e pessoal, contar histórias focadas na fragilidade humana, no impacto das emoções e no crescimento pessoal durante uma das fases mais turbulentas da vida, a adolescência. Desde o primeiro lançamento, tivemos mais três projetos que, embora não tivessem tido o sucesso comercial esperado, conseguiram conquistar uma boa dose de jogadores, principalmente os fãs do subgénero japonês “Mahou Shoujo”. Para mim, foi fácil gostar desta série, talvez por apreciar esta virtude de raparigas com poderes mágicos como vimos em Sailor Moon ou Madoka Magica. É um estilo que me diz muito e que normalmente tem tendência para trabalhar particularmente bem as emoções.
Por isso, Blue Reflection Quartet é a compilação ideal para quem quer descobrir a série na totalidade, porque não só inclui os quatro jogos que foram lançados, como acrescenta novidades que ajudam a perceber muito melhor este universo.

O primeiro Blue Reflection coloca-nos no papel de Hinako Shirai, uma jovem bailarina que vê o seu sonho adiado depois de sofrer um acidente. Em poucos instantes, vê-se envolvida numa situação que não esperava, acabando por se transformar numa Reflection. Apesar de precisarmos de lutar contra diversas criaturas para salvar o mundo, o foco principal da história reside nos sentimentos das personagens que vamos conhecendo, incluindo a nossa protagonista. Durante o jogo, vamos lidando com as inseguranças, traumas e angústias, sentimentos comuns que podem surgir durante adolescência, utilizando aqui o sobrenatural, não como um chamariz para a ação mas sim como uma metáfora visual para esses momentos de conflitos internos.
Hayato Asano foi o principal responsável pela banda sonora desta série.
A maioria dos eventos passa-se na escola, o ambiente principal deste jogo, pelo que temos um ritmo diferente daquele a que podemos estar habituados no género JRPG. É mais calmo e contemplativo, privilegiando as conversas, o conhecimento de cada personagem, os laços e a resolução de pequenos dramas com os quais acredito que a maioria dos jogadores se identifique. É uma narrativa sensível que se torna o coração desta aventura, ao contrário da restante jogabilidade, que nem sempre prende como devia.
A exploração dos cenários podia ser melhor, os mundos dentro dos subconscientes destacam-se pela atmosfera e a criatividade mas falham por terem uma estrutura demasiado linear. As missões sofrem do mesmo problema e o sistema de combate por turnos, embora vá crescendo ao longo da jornada, não entrega grande desafio ou complexidade estratégica.
No entanto, a sequela Blue Reflection: Second Light agarra-se às virtudes do primeiro e aprende com os seus erros para trazer uma proposta mais refinada, mantendo um enredo interessante enquanto melhora pontos na jogabilidade que anteriormente ficavam um pouco a desejar. Nesta história acompanhamos Ao Hoshizaki e as suas colegas que acordam sem memórias num mundo misterioso que está rodeado por um oceano sem fim à vista. Sem compreenderem o que está a acontecer, decidem procurar pelas memórias e encontrar maneiras de sobreviver naquele espaço.

Tal como no primeiro, o enredo promove fortemente os sentimentos de cada uma das personagens, as suas dúvidas e conflitos internos. Mas nesta sequela temos também um mistério a alimentar de igual forma a história do jogo, algo que nos vai deixando curiosos sempre que descobrimos pormenores sobre este mundo.
Neste aspeto, não esperava outra coisa desta sequela, visto a história do primeiro ter sido igualmente cativante. Mas o que mais surpreende aqui é a extensão da sua jogabilidade e a forma como a narrativa e a jogabilidade se combinam. Para além da escola, temos as masmorras chamadas Heartscapes, que são manifestações físicas das memórias e sentimentos das próprias personagens. Felizmente, a exploração passa a ter um propósito direto no enredo, percorrer estes espaços significa literalmente navegar pelas dores e conquistas do elenco, transformando o level design numa extensão da narrativa. Além disso, estes espaços são mais criativos e não cometem o mesmo erro do primeiro jogo.
O sistema de combate é uma extensão do que vimos anteriormente, dando mais envolvência e rapidez às lutas, algo parecido ao que vimos em Atelier Ryza, o que acaba por trazer a profundidade estratégica que faltou em Blue Reflection. Em várias situações temos de ter atenção à gestão do ritmo das batalhas, às transformações e ao consumo de Éter quando aumentamos o nível da nossa Gear. Tudo isto acaba por puxar mais pela nossa vontade de lutar, tornando os confrontos mais intensos e divertidos.
Fora destes momentos, podemos ainda divertir-nos a desenvolver as estruturas da escola, que são essenciais para desbloquear melhorias, bem como para desbloquear novos eventos e interações que trazem mais dinamismo à narrativa.

No interior desta compilação, as restantes obras incluídas em Blue Reflection Quartet acabam por funcionar mais como complementos deste universo do que como os protagonistas da coleção. Blue Reflection RAY que foi lançado no formato anime com o propósito de nos aproximar da história de Blue Reflection: Second Light, expande a mitologia através de novas perspectivas e personagens. A diferença nesta versão é que temos uma vertente jogável que adapta os 24 episódios da animação de forma mais compacta, ainda assim com um novo prólogo, epílogo e 24 novos eventos de personagens com conversas e interações únicas que não estão presentes na animação.
Não achei tão cativante como os títulos principais, teria gostado de ver simplesmente só anime com as novidades implementadas sem ser preciso controlar as personagens, mas, como sempre, a sua narrativa acaba por nos deixar interessados e ainda por cima ficamos a perceber melhor alguns pontos que ficaram por responder.
Por outro lado, temos Blue Reflection Sun, talvez o título mais curioso desta versão, que estava preso ao formato mobile (onde nem sempre é fácil ter acesso ou perceber parte da sua estrutura confusa devido às escolhas de design). Dito isto, conseguiram trazer uma adaptação do mesmo para as consolas, algo que se está a tornar comum atualmente e pelo qual sinceramente agradeço, permitindo ter acesso a uma parte da história que, se não fosse assim, ficaria para trás. Aproveitaram também esta reestruturação para moldar o combate inspirando-se no Second Light, o que é uma enorme mais-valia. Para não falar que a estrutura de exploração foi refeita em 3D, permitindo-nos explorar a escola livremente (algo que não acontecia na versão mobile). Obviamente, a história foi expandida, recebendo as mesmas alterações de Ray, novos eventos e entre outros conteúdos.
Podemos ver ambos os títulos como fundamentais nesta coleção por ajudarem a enriquecer o universo do jogo, mas não esperem a mesma estrutura dos dois títulos principais. São mais simples, principalmente na jogabilidade, e se não fosse a sua importância para a narrativa, acredito que ficassem de parte.
Blue Reflection Quartet trouxe da mesma forma melhorias de qualidade de vida a cada jogo. Quem já os jogou não terá de esperar horas para avançar nos eventos ou mesmo nos combates. Houve também a preocupação de inserir um sistema de gravação automática, parece que não, mas ajuda a não perdermos o tempo de jogo investido ou a não ficarmos muito para trás caso tenhamos gravado num ponto demasiado distante. Para organizar a história, a Gust incluiu ainda uma base de dados cronológica e um mapa de relações que liga o enredo de todos os títulos. Uma maravilha para os fãs que estavam desejosos de perceber melhor as ligações entre cada personagem.

No que diz respeito a gráficos estes foram adaptados para as gerações atuais, focando-se na fluidez e na qualidade visual que atinge os 60 fps, podendo ser jogados a 4K, no meu caso na PlayStation 5. As próprias texturas e efeitos visuais foram trabalhados, dando ênfase aos cenários e ao design de personagens do ilustrador Mel Kishida. Mesmo assim, não deixo de notar diferenças. Por exemplo, em Blue Reflection: Second Light estas mudanças são mais perceptíveis, enquanto nos outros títulos nem tanto, parecendo por vezes um pouco datados.
A banda sonora é bastante sonante, apresentando um bom contraste de sonoridades. Diria que as músicas que representam bem o que o jogo quer comunicar são as mais melancólicas, com aquele tom mais calmo e leve. O combate está também muito bem representado, com o eletrónica e elementos dubstep a dar ritmo enquanto usamos as nossas habilidades durante as lutas. Quanto às vozes, fico-me pela língua japonesa, que nos faz sentir que estamos a lidar verdadeiramente com personagens adolescentes.
Poderiam ter acrescentado as legendas em português, seria de grande ajuda para quem não está acostumado com o inglês, visto serem jogos com narrativas complexas e com muito texto.
Blue Reflection Quartet acaba por ser um pacote honesto e bem ponderado. As melhorias na qualidade de vida implementadas trazem um conforto positivo ao longo dos quatro jogos, tornando a experiência muito mais fluida. Além disso, a decisão de dar uma nova roupagem ao conteúdo mobile e adaptá-lo para as consolas foi uma boa jogada, garantindo que os fãs têm finalmente um acesso mais simples a uma parte da história que corria o risco de se perder.
A grande vantagem desta coleção reside mesmo na sua relação com o preço, ao pagarmos por quatro jogos num único pacote, temos a oportunidade para testemunhar a evolução da série de jogo para jogo e absorver a sua narrativa de forma contínua. É verdade que continua a ser um título de nicho, com espírito de produção AA, mesmo com as melhorias gráficas evidentes nesta versão. Contudo, para quem estiver disposto a abrir a mente, encontrará aqui uma história interessante, capaz de explorar com sensibilidade o lado emocional e as complexidades de um grupo de jovens raparigas numa fase tão marcante da vida.












