
A Google confirmou que vai alterar o funcionamento do seu motor de pesquisa na União Europeia, numa tentativa de contornar parte das multas de 890 milhões de euros aplicadas pela Comissão Europeia no verão. A empresa não esconde que a mudança vai representar uma perda de qualidade para quem pesquisa a partir do território europeu, mas garante que é o preço a pagar para cumprir a legislação comunitária.
O caso remonta a março de 2024, quando a Comissão Europeia abriu uma investigação à Google, à Apple e à Meta por suspeitas de autopreferência, ou seja, por darem destaque aos seus próprios serviços em detrimento da concorrência. No caso da Google, um dos exemplos mais citados era a forma como a informação do Google Flights aparecia destacada acima de outras opções em pesquisas relacionadas com viagens.
Um ano depois, a Comissão avançou com as primeiras coimas relacionadas com esta prática. Já em outubro de 2025, surgiram notícias de que a Google teria proposto alterações à forma como apresenta os resultados de pesquisa, precisamente para tentar cumprir as regras europeias.
A situação agravou-se no verão deste ano, quando a Comissão Europeia aplicou à Google duas multas que, juntas, somam 890 milhões de euros por incumprimento da Lei dos Mercados Digitais (DMA). Destes, 460 milhões de euros dizem respeito especificamente às práticas de pesquisa, com Bruxelas a considerar que a Google favorecia sistematicamente os seus próprios serviços na ordenação dos resultados. A DMA é clara quanto a este ponto, as grandes plataformas tecnológicas “não podem tratar os seus próprios serviços de forma mais favorável em termos de classificação do que os serviços de terceiros“.
O que muda para quem pesquisa a partir da Europa
De acordo com a Reuters, que teve acesso aos detalhes da proposta, os novos resultados de pesquisa vão passar a destacar um motor de pesquisa especializado no topo da página, seguido de outros dois com menos informação associada. Abaixo destes, vai surgir um carrossel com hotéis, companhias aéreas e restaurantes, mas sem elementos como preços em tempo real, que até agora facilitavam a comparação direta entre opções.
Na prática, isto significa que sites de comparação e agregadores, como a Expedia ou a Hotels.com, vão passar a ter mais destaque nos resultados do que as páginas próprias de hotéis, companhias aéreas ou restaurantes individuais. Ainda assim, segundo a mesma reportagem da Reuters, a ordenação final dentro desse destaque continua a ser definida pelo algoritmo da própria Google, o que significa que a empresa mantém uma margem de controlo considerável sobre a forma como a informação é apresentada.
A Comissão Europeia tinha dado à Google um prazo de 60 dias para cumprir as novas regras, mas a empresa ainda não avançou uma data concreta para quando os utilizadores europeus vão começar a notar as alterações.
Google fala em maior recuo de sempre na qualidade da pesquisa
Do lado da Google, a leitura é bem diferente. A empresa tem vindo a defender que cumprir a DMA obriga, na prática, a entregar um produto pior aos utilizadores europeus, e afirma que estas alterações vão representar a maior quebra de qualidade da história do seu motor de pesquisa.
Em declarações à Reuters, Nick Fox, vice-presidente sénior da área de conhecimento e informação da Google, foi direto:
“Estas alterações degradam a experiência dos utilizadores europeus — a favorecer intermediários online à custa dos negócios locais, e a remover funcionalidades úteis das quais as pessoas dependem todos os dias“.
Segundo a empresa, alterações anteriores feitas para cumprir a DMA já tinham provocado uma quebra de 30% no tráfego direto e gratuito de reservas para negócios europeus, e a Google admite que esta nova ronda de mudanças deverá traduzir-se em nova perda de tráfego para esses mesmos negócios.
Para já, resta aos utilizadores na Europa esperar para perceber, na prática, o alcance destas alterações assim que forem implementadas.









