
Toshio Suzuki, cofundador e produtor histórico do Studio Ghibli, falou pela primeira vez sobre a onda de imagens geradas por inteligência artificial ao estilo do estúdio japonês, um fenómeno que dominou as redes sociais em 2025. A declaração surge numa entrevista ao jornal Asahi Shimbun, publicada no fim de semana, na qual Suzuki também comenta o processo criativo de Hayao Miyazaki e a possibilidade de o diretor voltar a assinar um novo filme.
Suzuki explicou que o estúdio recebeu inúmeros pedidos de entrevista quando as imagens ao estilo Ghibli, criadas com recurso a IA generativa, se tornaram virais, mas optou por não responder a nenhum deles até agora. A razão, segundo o próprio, foi simples, estava convencido de que o interesse do público iria esmorecer sozinho.
Questionado diretamente se a IA consegue imitar uma obra do Studio Ghibli, Suzuki não hesitou: “Não“. Foi ainda mais longe, argumentando que, na sua opinião, a IA poderia até ter mais valor artístico se fosse usada de outra forma. Para ilustrar a diferença entre o trabalho humano e o gerado por máquina, recorreu a um exemplo muito concreto, quando Miyazaki desenha alguém a pressionar a barriga do Totoro, garante sempre que existe uma reentrância visível nesse gesto. Um pormenor que pode parecer insignificante, mas que, segundo Suzuki, nem o CGI nem a IA conseguem reproduzir.
Há ainda outro dado que ajuda a explicar a distância entre Miyazaki e este debate, segundo Suzuki, o diretor nem sequer sabe que a IA generativa existe. Durante a produção de The Boy and The Heron, filme premiado com o Óscar em 2023, Miyazaki isolou-se por completo de notícias e informação, ao ponto de deixar de usar o telemóvel, de ler jornais, de ver televisão e até de conviver socialmente. Suzuki resume a contradição de forma direta, a IA é, no fundo, um processo de recolha de informação, e o método de trabalho de Miyazaki é exatamente o oposto disso.
A entrevista também abordou o futuro do diretor. Questionado sobre se Miyazaki fará mais um filme, Suzuki foi franco ao admitir que a vontade de continuar a criar existe, mas que a questão está antes em saber se o corpo do diretor, hoje com 85 anos, aguenta esse ritmo. Ainda assim, Suzuki nota que Miyazaki continua cheio de ideias pouco convencionais, entre elas a exposição Panorama Box, patente no Ghibli Park.
Suzuki é um dos rostos mais associados à história do Studio Ghibli. Integrou a comissão de produção e desempenhou funções de planeamento e produção assistente nos primeiros filmes do estúdio, antes de assumir formalmente o cargo de produtor numa longa lista de obras.
Suzuki assumiu ainda, em 2023, a presidência do Studio Ghibli, sucedendo a Koji Hoshino num segundo mandato no cargo. Nesse mesmo ano, a liderança executiva passou para Hiroyuki Fukuda, da Nippon Television Holdings, e desde junho deste ano é Kenichi Yoda quem ocupa a presidência da produtora.









