
No Japão, há palavras específicas para descrever o que acontece quando um fã deixa de ser fã. Oikake (追いかけ) significa perseguição. Machibuse (待ち伏せ) significa emboscada, ficar à espera num local por onde se sabe que a pessoa vai passar. Não são palavras novas, nem são comportamentos raros. São práticas suficientemente comuns para terem nome próprio, suficientemente graves para terem levado à morte de artistas, e suficientemente persistentes para que, em maio de 2026, uma cantora como milet ainda precise de publicar um comunicado a avisar que vai chamar a polícia.
Como a cultura idol construiu o problema
Perceber de onde vem o oikake exige perceber como funciona a cultura idol japonesa. Ao contrário das celebridades ocidentais, que tendem a cultivar distância e mistério, as idols japonesas são comercializados precisamente pela proximidade. O conceito central, popularizado pelo modelo AKB48, é o de uma “idol que podes conhecer”, uma figura acessível, disponível, que aparentemente existe para ti. Eventos de aperto de mão, sessões de fotos, transmissões ao vivo e interações constantes nas redes sociais constroem uma ilusão de intimidade que a indústria alimenta deliberadamente porque é lucrativa.
O problema é que essa ilusão tem um lado escuro documentado. Investigadores referem-se a estas ligações como relações parasociais, unilaterais por definição, mas sentidas como recíprocas por quem as vive. Quando um fã passa anos a consumir conteúdo diário de um artista, a sentir que o “conhece” genuinamente, a fronteira entre admiração e obsessão pode esbater-se de formas que têm consequências reais.

Os casos que mudaram a lei e os que não mudaram nada
O Japão tem uma Lei Anti-Stalking desde o ano 2000, aprovada depois do assassínio de uma universitária em 1999 às mãos de um homem que a havia perseguido durante meses. A polícia tinha ignorado as queixas da vítima antes do crime.
A lei foi revista em 2013 para incluir o assédio por e-mail, depois de um novo assassínio. E novamente em 2016, desta vez por causa do caso de Mayu Tomita, uma cantora de 20 anos que foi esfaqueada 61 vezes por um fã enfurecido porque ela devolveu os presentes que ele tinha enviado. Tomita tinha ido à polícia 12 dias antes do ataque. As autoridades não agiram, considerando que as mensagens nas redes sociais não constituíam uma ameaça imediata. A revisão de 2016 alargou a lei para cobrir o assédio nas redes sociais.
Em 2019, a idol Ena Matsuoka foi atacada à porta de casa por um stalker que tinha descoberto a sua morada através de reflexos nas pupilas das suas fotos de selfie, ampliando as imagens que ela publicava nas redes sociais. O método era tão elaborado que a história circulou internacionalmente como um aviso sobre os riscos invisíveis das redes sociais.
Cada incidente gerou debate. Cada debate gerou reformas. E o problema continuou.
Os números de hoje
Os dados mais recentes da Agência Nacional de Polícia do Japão mostram que em 2024 as autoridades registaram 19.567 consultas e denúncias relacionadas com stalking, apenas uma ligeira descida face ao ano anterior. No mesmo ano, foram detidos 1.341 suspeitos em casos de stalking, o número mais elevado desde a revisão legal de 2016. Os tribunais emitiram 2.415 ordens de restrição, o número mais alto de sempre.
Uma tendência nova e preocupante, os casos envolvendo rastreamento por localização GPS, incluindo tags escondidas em pertences das vítimas, quase triplicaram entre 2022 e 2024, passando de 113 para 370 casos registados.
A legislação está uma vez mais a ser discutida. A proposta em análise permitiria à polícia emitir avisos a suspeitos sem que a vítima precise de apresentar uma queixa formal primeiro, uma mudança que os críticos pedem há décadas, tendo em conta que muitas vítimas hesitam em avançar por medo de represálias.
Investigações no Japão mostraram que um quarto dos stalkers não reconhece sequer que o seu comportamento constitui stalking, acreditando que as suas ações são justificadas.
O oikake e o machibuse não são patologias de indivíduos isolados. São o sintoma mais visível de uma tensão estrutural entre o que a indústria vende, proximidade, e o que os artistas, afinal, precisam de ter, a possibilidade de andar na rua sem serem seguidos.









