Há géneros que resistem simplesmente à passagem do tempo, e os jogos de plataformas em 3D são um excelente exemplo disso. Décadas depois da sua popularidade, continuam a demonstrar que, quando há uma boa compreensão daquilo que os torna especiais, conseguem chegar a jogadores de todas as idades. Duskfade, o videojogo da produtora Weird Beluga e editora Fireshine Games, decidiu abraçar essa herança, recuperando a magia dos clássicos que o inspiraram, mas envolvendo-a numa apresentação atual, construída a partir do Unreal Engine 5, que lhe permite aproximar-se do que é feito na atualidade.

Em Duskfade, somos Zirian, um jovem corajoso que tem de salvar a sua irmã, Allira, que, após um acidente, fica presa na misteriosa Torre do Relógio. Como consequência, uma noite eterna abateu-se sobre o mundo e o nosso protagonista, ao lado de um pássaro mecânico chamado Cuckoo, vê-se perante a tarefa de restaurar o próprio tecido do tempo.
O enredo pode levar o tempo a desenvolver, mas quando damos conta, toma direções surpreendentes ao revelar uma história emocionante que explora sobretudo temas como o amor e a perda. Gostei particularmente da ligação entre os irmãos, que dá um toque muito especial e emotivo ao jogo. Pelo meio, a química entre o protagonista e as restantes personagens funciona às mil maravilhas, sobretudo com Cuckoo, o seu companheiro fervoroso que desanuvia o ambiente com o seu sentido de humor.
Ao mesmo tempo, vamos descobrindo mais sobre a narrativa através dos ecos que encontramos nos cenários que exploramos. Acabamos por ouvir fragmentos das experiências de outras pessoas que por ali passaram, ajudando a compreender melhor os acontecimentos presentes.

Como já esperava, em Duskfade o estúdio espanhol demonstra compreender aquilo que torna os jogos de plataformas tão fascinantes, a exploração e o controlo da personagem. Os movimentos sentem-se fluídos e responsivos, demonstrando que o jogo percebe que o simples ato de atravessar os ambientes deve ser também estimulante e divertido.
Grande parte do nosso tempo é passado a realizar saltos singulares ou duplos, a usar o gancho para ultrapassar e alcançar obstáculos ou a saltar entre paredes. Existem inúmeras plataformas e perigos pelo caminho, e tudo isto funciona perfeitamente sem quebrar o ritmo da jogabilidade. Durante estes momentos, avançar pelos cenários não chega a ser uma tarefa hercúlea, mas o jogo incentiva-nos a pensar e a calcular os nossos movimentos antes de, por exemplo, saltarmos de uma plataforma distante para outra.
Os gatos colecionáveis que encontramos pelo caminho têm história, sendo inspirados nos animais de estimação dos criadores.
Os ambientes iniciais servem precisamente para aprendermos a manusear as nossas habilidades, até porque mais à frente o jogo pede uma maior destreza na movimentação e no uso dos acessórios que temos à disposição. A curva de aprendizagem segue com naturalidade, sem exigir demasiado logo nas primeiras horas. O equilíbrio na acessibilidade é evidente, não sendo necessário ser veterano neste estilo de jogo para ultrapassar os desafios. Nota-se que o objetivo principal da Weird Beluga passa pela diversão e por permitir que aproveitemos ao máximo a experiência.
Quem gosta de explorar antes de avançar para o caminho principal, como eu, vai encontrar várias recompensas. Baús com a moeda do jogo, recursos que aumentam a nossa vida, roupas para a personagem, caixas de música, rodas dentadas que desbloqueiam novas habilidades e por aí a fora. Os caminhos alternativos não servem só para decorar os cenários, escondem sempre segredos e algo que pode ser útil para a aventura.

O que complica um pouco esta vertente é a inexistência de um mapa que indique o que ficou para trás. Quando desbloqueamos uma habilidade que permite abrir um caminho alternativo anteriormente inacessível, é bastante provável que já não nos lembremos de onde ele se encontra. Para nossa sorte, o sistema de viagem rápida apresenta os colecionáveis de cada área, mostrando exatamente quantos segredos já encontramos e quantos continuam por descobrir.
Outro elemento que já era evidente pelos trailers é o seu combate inspirado em Kingdom Hearts. Tudo faz lembrar Sora em ação, desde os ataques com a espada em forma de ponteiro de relógio (alusiva à Keyblade) até à própria movimentação e expressões da personagem. Imaginem o primeiro Kingdom Hearts, não temos mecânicas nem estratégias particularmente complexas, o objetivo passa por aproveitar ao máximo os combos enquanto atacamos e desviamos no momento certo para abrandar o tempo durante segundos. É simples, mas eficaz.
Inclusive, a espada vai mudando de forma ao longo da aventura, trazendo variedade e um conjunto de habilidades únicas. Cuckoo, para além de resmungão, revela-se igualmente útil em combate, podendo não só ajudar diretamente como utilizar as suas próprias habilidades para derrotar as criaturas deste mundo.

No entanto, é a dinâmica entre o combate e a exploração que funciona particularmente bem. Na maioria das situações tudo é intuitivo e acontece com grande rapidez. Num instante surgem inimigos, atacamos, desviamo-nos no momento certo, utilizamos as habilidades, derrotamos-os, saltamos para a plataforma à nossa frente e seguimos em frente.
Mesmo assim, o desafio não surge durante os confrontos com os inimigos comuns, mas sim nas batalhas contra os bosses. Cada um possui comportamentos diferentes, colocando tudo aquilo que aprendemos à prova até esse momento. Os bosses apresentam visuais marcantes, padrões de ataque variados, várias fases e perigos espalhados pelo cenário que nos obrigam a estar constantemente atentos ao que nos rodeia, trazendo à memória as batalhas dos antigos The Legend of Zelda.

O impacto visual de Duskfade é imediato. Cada reino apresenta uma diversidade impressionante de biomas com cenários coloridos e vibrantes. Num momento estamos a explorar uma floresta em ruínas e, no seguinte, um ambiente vulcânico ou subaquático.
É difícil não estabelecer as referências provenientes de Kingdom Hearts, mas o encanto único da experiência de Duskfade assemelha-se perfeitamente à magia presente na série da Square Enix. Os seus mundos parecem retirados de um sonho, ficando facilmente na memória. Apesar das suas inspirações, o jogo possui uma identidade pessoal, combinando elementos de fantasia com uma estética clockpunk bastante apelativa.
A música ficou a cargo de Magnus Ludvigsson, um compositor focado sobretudo na música clássica.
A banda sonora reforça ainda mais esta magia e nostalgia que o jogo procura transmitir. Os temas orquestrais, apesar de originais, fazem lembrar os filmes de animação de fantasia, especialmente os da Disney. As vozes também estão óptimas, e quem aprecia desenhos animados como os do Cartoon Network ou da Disney vai apreciar de certeza.
Duskfade é uma aventura com um grande coração. Mais do que querer simplesmente revitalizar os clássicos jogos de plataformas e aventura da era da PlayStation 2, Duskfade compreende genuinamente a filosofia de design que os tornava especiais. Apesar de seguir à risca alguns elementos que hoje já não fazem tanto sentido, entrega uma jogabilidade divertida, um mundo encantador e uma história comovente protagonizada por uma dupla difícil de esquecer.











