
Há três décadas, a NVIDIA quase desapareceu antes de se tornar na gigante que hoje vale mais do que praticamente qualquer outra empresa do mundo. Foi precisamente essa história que Jensen Huang, fundador e CEO da NVIDIA, decidiu recordar num evento realizado em Tóquio, no dia 15 de julho, dedicado a assinalar os 30 anos de parceria entre a NVIDIA e a Sega.
O encontro teve lugar no GiGO Akihabara 3, antigo Sega Akihabara Arcade, e reuniu cerca de 70 pessoas selecionadas através de um sorteio público. Além de Huang, marcaram presença Haruki Satomi, presidente e CEO da Sega, Shuji Utsumi, presidente e diretor de operações da empresa, Shoichiro Irimajiri, antigo presidente da Sega Enterprises e ex-vice-presidente executivo da Honda, e ainda Yu Suzuki, criador de sagas como Virtua Fighter e Shenmue.
Antes de mais, Huang recordou a primeira vez que viajou até ao Japão, em 1994, precisamente para conhecer Suzuki e Irimajiri. Nessa altura, a NVIDIA tinha apenas um ano de existência e começava a produzir chips para jogos, mas praticamente ninguém desenvolvia jogos em 3D para computadores pessoais. Segundo Huang, só as arcadas conseguiam correr esse tipo de gráficos, e os verdadeiros jogos em 3D da época eram obra da equipa AM2 de Suzuki, responsável por títulos como Daytona USA, Virtua Racing e Virtua Fighter.
O impacto de Daytona USA, lançado na América do Norte em 1994, terá sido tal que os próprios engenheiros da NVIDIA passavam mais tempo nas arcadas do que a desenvolver chips. Huang chegou a confessar que duvidava se os gráficos do jogo eram mesmo renderizados em 3D, tal era a qualidade do mapeamento de texturas, corrido a uma taxa estável de 60 fps. Foi essa experiência que despoletou a vontade da NVIDIA de trabalhar diretamente com a Sega.
Esse desejo viria a concretizar-se quando a empresa foi convidada a desenvolver a GPU da Dreamcast, a consola que sucederia à Saturn. Só que o projeto esteve longe de correr bem, cerca de nove meses depois do início do desenvolvimento, a equipa da NVIDIA percebeu que a abordagem técnica escolhida, baseada em mapeamento de texturas direto e superfícies curvas, simplesmente não era compatível com o que a Dreamcast precisava, que passava antes por mapeamento inverso de texturas e polígonos.
Huang admitiu junto de Irimajiri que a tecnologia da NVIDIA não iria funcionar com a Dreamcast, mas isso deixava a empresa sem forma de continuar a operar. Foi nesse momento que pediu um investimento à Sega, que acabou por aceitar financiar a NVIDIA apesar do falhanço técnico. O valor desse investimento rondou os cinco milhões de dólares, injetados em 1996, numa altura em que a sobrevivência da NVIDIA estava verdadeiramente em risco.
“Sem a Sega, a NVIDIA provavelmente não existiria hoje“, resumiu Huang durante o evento.

A empresa que a Sega ajudou a manter viva viria a tornar-se, décadas mais tarde, na mais valiosa do mundo. Depois de anos a desenvolver GPUs cada vez mais capazes de gerar gráficos 3D fluidos e detalhados, a NVIDIA tornou-se, em outubro de 2025, a primeira empresa da história a ultrapassar os cinco biliões de dólares em valor de mercado. Mais recentemente, a empresa consolidou também a sua posição no setor da inteligência artificial generativa.
Durante o evento em Akihabara, foi ainda feita uma demonstração de Virtua Fighter Crossroads a correr num portátil equipado com a futura NVIDIA RTX Spark, cujo lançamento está previsto para o outono de 2026. Esta nova linha de sistemas-em-chip destina-se a portáteis finos e computadores compactos, combinando capacidades gráficas com processamento de inteligência artificial. O jogo, com lançamento marcado para 2027, terá corrido de forma bastante fluida no hardware apresentado, e tudo indica que terá sido a primeira vez que o próprio Huang viu o título em ação num equipamento com este chip, descrevendo a experiência como muito bonita.
Depois da demonstração, os participantes tiveram ainda direito a um sorteio com prémios que incluíam a placa gráfica topo de gama GeForce RTX 5090 Founders Edition e dispositivos equipados com a RTX Spark. Alguns fãs levaram mesmo consigo peças de coleção da NVIDIA de gerações passadas para que Huang as autografasse, um pormenor que reforça o ambiente descontraído que rodeou o encontro.
Antes de encerrar a sessão, Huang aproveitou para revelar que a sua viagem ao Japão coincidiu com um anúncio mais amplo entre a NVIDIA e o governo japonês, que classificou como um momento importante, quase o início de uma nova era da inteligência artificial no país, prevendo ainda parcerias em robótica e IA com várias empresas japonesas de referência.
Já em relação a Suzuki, Huang não poupou elogios. “Sem o seu trabalho monumental a criar jogos em 3D como o Virtua Fighter, os jogos de hoje seriam completamente diferentes“, disse, reforçando ainda que a amizade e o apoio da Sega, de Irimajiri e de Suzuki continuarão presentes na sua memória para o resto da vida.








