
Quinze anos passaram desde o Grande Terramoto do Leste do Japão de 11 de março de 2011, a catástrofe de magnitude 9,1 que desencadeou um tsunami devastador, causou mais de 19000 mortos e destruiu comunidades inteiras ao longo da costa do Tohoku. À medida que o aniversário voltou a circular nas redes sociais japonesas, uma memória coletiva inesperada começou a ganhar forma no X.
Vários utilizadores que eram crianças do ensino básico na altura recordavam-se de um pormenor curioso, as suas escolas tinham recebido coleções completas do mangá One Piece logo após o terramoto. Mas quando tentavam confirmar a memória online, não encontravam nada. Nenhuma notícia, nenhum comunicado, nenhuma menção em lado nenhum.
O fio começou a desenrolar quando a utilizadora Mimosa Salad (@yeqq88465) publicou: “Durante o terramoto de Tōhoku de 2011, tenho a certeza de que o Eiichiro Oda doou uma coleção completa de volumes de One Piece à minha escola primária. Costumava lê-los sem parar durante o intervalo, mas quando pesquiso no Google, não aparece nada, por alguma razão”.
A publicação abriu as comportas. Utilizadores de Iwate, Miyagi e de outras prefeituras afetadas vieram partilhar a mesma memória fragmentada: livros que estavam lá, lidos vezes sem conta, mas sem origem rastreável. Um utilizador de Iwate confessou ter tentado encontrar a resposta anos antes sem sucesso. Outro, de Miyagi, assumiu que os livros tinham sido enviados para “todas as escolas de Miyagi”, sem qualquer prova, apenas por intuição.
O mistério foi resolvido quando o utilizador RN黒猫レオパード (@rto0y) desenterrou um blogue de 2012 da Escola Primária de Otome. A publicação revelou o que nenhuma cobertura jornalística tinha registado, a Shueisha, a editora responsável pela Weekly Shōnen Jump, tinha oferecido silenciosamente os 68 volumes da série disponíveis na altura a qualquer escola do ensino básico nas seis prefeituras do Tohoku que os solicitasse. O objetivo era simples, ajudar as crianças afetadas a recuperar o ânimo através da leitura.
Na Escola Primária de Otome, a chegada dos livros criou um dilema. A escola não permitia banda desenhada nas suas instalações. Perante o gesto da Shueisha, a biblioteca decidiu fazer uma exceção: “Decidimos que os alunos podiam lê-los dentro da biblioteca, desde que concordassem em não levar os livros para fora da biblioteca e em não trazer outros mangás”. Segundo o blogue, a medida foi bem recebida, com a biblioteca a encher-se de crianças a ler One Piece nos intervalos, incluindo alunos que já possuíam a série em casa e que preferiam a experiência coletiva da biblioteca.
Noutras escolas, o efeito foi semelhante. Um utilizador recordou que a chegada dos volumes de One Piece provocou “uma revolução” no estabelecimento, que nunca tinha permitido banda desenhada na biblioteca antes da doação.
O gesto da Shueisha foi, por sua natureza, feito sem publicidade. A editora não emitiu comunicados, não procurou reconhecimento e não notificou os meios de comunicação. O resultado foi que as crianças que beneficiaram da iniciativa cresceram sem saber a quem atribuir aquela memória, e muitas chegaram a pensar que tinha sido o próprio Eiichiro Oda a agir individualmente. O autor de One Piece tem historial de envolvimento em causas de reconstrução no Japão, incluindo o One Piece Kumamoto Revival Project após o terramoto de 2016, o que tornava a suposição plausível.
A história surge num momento em que a indústria do mangá japonesa atravessa uma fase conturbada, marcada por polémicas laborais e debates sobre condições de trabalho. O reconhecimento tardio desta iniciativa da Shueisha foi recebido com entusiasmo genuíno, e com algum alívio, por quem a acompanhou.









