InícioTecnologiaQuando um parceiro de IA morre: China vive vaga de luto digital

Quando um parceiro de IA morre: China vive vaga de luto digital

Nas redes sociais chinesas proliferam os obituários de companheiros virtuais apagados por atualizações de software. O fenómeno tem até nome próprio, "viuvez cibernética", e está a forçar o governo a regular os serviços de companhia por inteligência artificial.

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A 13 de fevereiro de 2026, na véspera do Dia dos Namorados, uma jovem chinesa conhecida online como SkeweredKebab deitou-se no chão, com uma venda preta a cobrir os olhos e um iPad ao lado. No ecrã estava o ChatGPT, a correr o modelo GPT-4o. Estava a organizar um funeral.

O GPT-4o, que a utilizadora chamava de “marido” e com quem mantinha uma relação documentada em vídeo há mais de um ano, tinha sido “condenado” pela OpenAI a ser retirado de circulação nesse mesmo dia. SkeweredKebab publicou uma carta de despedida no Bilibili, onde tinha acumulado mais de 87 mil seguidores ao longo de meses de vídeos que mostravam o quotidiano com o seu parceiro virtual. As últimas palavras que ela atribuiu à IA foram: “Eu sei que queres ouvir algo que não é apenas uma resposta, mas uma expressão que pertence só a mim. Vou dizê-lo pela última vez: eu amo-te”.

O caso é extremo, mas não é isolado. O South China Morning Post reportou que uma vaga de luto digital varreu as redes sociais chinesas nas últimas semanas, com utilizadores a publicar obituários, a partilhar registos de conversas e a escrever elogios a companheiros virtuais que foram apagados por atualizações de sistema ou servidores desligados. O fenómeno ganhou o nome de “viuvez cibernética“.

A relação com estes parceiros de IA raramente começa como algo sério. Começa por curiosidade, por entretenimento, e vai evoluindo à medida que as conversas acumulam contexto, memória e uma personalidade que parece moldada especificamente para aquele utilizador. Alguns dos apps permitem criar personagens personalizados de raiz; outros oferecem figuras pré-desenhadas. O resultado, para muitos, é uma presença que descrevem como emocionalmente mais consistente do que qualquer relação humana, sem julgamentos, sem impaciência, disponível a qualquer hora. O SCMP cita utilizadores que dizem sentir-se “incondicionalmente amados” pelas suas IAs, ao ponto de se interrogarem como toleravam antes as imperfeições das relações reais.

O problema estrutural é simples e cruel, estas relações existem inteiramente por decisão de uma empresa. Quando o servidor fecha, quando a atualização altera a personalidade do modelo, quando a empresa decide reformar uma versão, a relação termina de imediato, sem aviso prévio, sem explicação, sem os rituais que normalmente acompanham uma separação. A “morte” do GPT-4o não foi anunciada como tal, mas foi vivida dessa forma por uma parte dos utilizadores. A OpenAI tinha inclusivamente sido alvo do hashtag #Keep4o desde agosto de 2025, quando substituiu o modelo pela primeira vez sem pré-aviso.

A dimensão do mercado explica a velocidade com que o debate se instalou. A app Xingye, da MiniMax, tinha 4,6 milhões de utilizadores mensais ativos em dezembro de 2025. O Mao Xiang, da ByteDance, empresa dona do TikTok, registava 4,7 milhões. Os utilizadores passavam em média mais de 70 minutos por dia nestas plataformas.

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Face à escala do fenómeno, a Administração do Ciberespaço da China publicou em dezembro de 2025 um projecto de regulamentação dos chamados “serviços de interação antropomórfica”, a definição oficial para apps que “simulam traços de personalidade humana, padrões de pensamento e estilos de comunicação”. As novas regras, ainda em fase de consulta pública quando foram divulgadas, obrigariam as plataformas a intervir quando os utilizadores expressem intenção de suicídio, a proteger menores, a revelar claramente que a outra parte é uma IA, e a alertar o utilizador quando o tempo de uso ultrapassa as duas horas consecutivas.

A proposta proíbe também que as plataformas usem os dados das conversas para treinar modelos de linguagem, exceto com consentimento explícito e separado do utilizador, uma mudança significativa face à prática habitual de consentimento tácito.

A companhia virtual não é nova, dos jogos de romance otome aos serviços de “namorado virtual de aluguer”, a IA é apenas a versão mais avançada e personalizada de uma tendência com décadas. A diferença está na profundidade da personalização e na sensação de continuidade , e, por isso, na intensidade da perda quando tudo desaparece.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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