
A Sony Honda Mobility (SHM), a joint venture formada em 2022 entre a Sony e a Honda, anunciou esta quarta-feira, 25 de março de 2026, que vai descontinuar o desenvolvimento e o lançamento do Afeela 1 e do segundo modelo Afeela que estava em desenvolvimento. A decisão, confirmada num comunicado oficial da SHM, encerra um projeto que durava há quase quatro anos e que tinha gerado considerável expectativa na indústria automóvel.
A história do Afeela começa ainda antes da própria joint venture. Em 2020, a Sony surpreendeu o público na Consumer Electronics Show (CES) com o conceito Vision-S, um protótipo que ninguém esperava ver numa conferência de eletrónica. A reação foi tão positiva que acabou por ditar o rumo seguinte, em 2022, a Sony formalizou a parceria com a Honda e, em 2023, a marca Afeela foi apresentada ao mundo, também na CES.
O modelo de produção, o Afeela 1, foi revelado na CES 2025 com um preço de partida de 89.900 dólares para a versão Origin. Integrava tecnologia PlayStation, um sistema de som com 28 colunas, um painel digital de largura total com mapas 3D e um conjunto de 40 sensores, câmaras, radares e LiDAR, destinados a suportar condução autónoma de nível 3. Na CES 2026, a empresa ainda apresentou o Afeela Prototype 2026, pensado para evoluir para um SUV de produção até 2028. Em março deste ano, a SHM chegou a inaugurar um espaço de exposição e entrega em Torrance, Califórnia, a 16 de março.
O fim do projeto tem uma causa clara, a Honda. A 12 de março, a fabricante japonesa anunciou o cancelamento de três veículos elétricos que estavam em fase avançada de desenvolvimento, o Honda 0 SUV, o Honda 0 Sedan e o Acura RSX, acumulando perdas que podem chegar aos 15,7 mil milhões de dólares. A Honda citou as tarifas impostas pela administração Trump e a crescente concorrência chinesa como razões para a decisão.

O problema para a SHM é que o Afeela 1 partilhava a plataforma técnica com esses mesmos modelos cancelados. Sem a arquitetura fornecida pela Honda, o projeto tornava-se tecnicamente inviável. O comunicado da SHM é claro: a empresa “não poderá utilizar determinadas tecnologias e ativos que estavam originalmente previstos ser fornecidos pela Honda”, o que significa que “não existe uma via viável para levar os modelos ao mercado tal como planeado originalmente”.
O futuro da joint venture e dos vários centenas de funcionários que tem no Japão e na Califórnia permanece incerto. A SHM afirmou que vai continuar a discutir com a Sony e a Honda a direção futura da empresa, prometendo anunciar o seu posicionamento “o mais brevemente possível”.
Quem tinha feito uma reserva do Afeela 1 na Califórnia, mediante um depósito reembolsável de 200 dólares, receberá o reembolso total.
Vale a pena ter em conta que o Afeela 1 já enfrentava ceticismo antes deste desfecho. Com um preço de arranque perto dos 90.000 dólares, uma autonomia estimada de cerca de 480 quilómetros e uma potência de carregamento de 150 kW, as especificações não eram particularmente competitivas face a rivais como o Tesla Model S, o Lucid Air ou o BMW i5.

O cancelamento do Afeela acontece num momento difícil para o setor elétrico. A Ford descontinuou a F-150 Lightning, a Ram cancelou a Ram 1500 elétrica e a Tesla prepara-se para abandonar os modelos S e X, entre outros. Ainda assim, outras marcas continuam a apostar forte em novos modelos, o que torna ainda mais visível o abismo entre quem acertou na estratégia e quem não acertou.








