
Jerome Mazandarani tem um historial extenso na indústria anime no ocidente. Foi diretor-geral da Manga Entertainment, uma das principais distribuidoras de anime no Reino Unido, e produtor executivo da série Cannon Busters para a Netflix. Quando fala sobre animação ocidental, fala de dentro do sistema, e o que disse recentemente no podcast The Anime Business não deixa muito espaço para ambiguidade.
O problema não é falta de talento
Segundo Mazandarani, a maioria dos estúdios de animação na Europa e nos Estados Unidos está orientada para um único segmento: “a maioria dos estúdios de animação na Europa e nos EUA faz conteúdo infantil, familiar e pré-escolar”. O problema é que os animadores que trabalham nesses projetos querem frequentemente fazer algo completamente diferente, algo mais próximo de “uma coisa de anime de ação e aventura para adultos, com sangue, fantasia, ao estilo Ghibli, Ninja Scroll, Ghost in the Shell”.
No Reino Unido, a situação é particularmente aguda. A frase que tornou as declarações de Mazandarani virais foi direta e sem rodeios:
“Toda a gente tem um anime dentro de si na comunidade internacional de animação, e há muito talento incrível. Só aqui no Reino Unido temos tantos animadores fantásticos, e estão todos a fazer m***a como a Peppa Pig. É de partir o coração, mas paga a renda. Não tenho bem a certeza de que um anime britânico vá enriquecer alguém”.
O arrependimento imediato
As declarações não passaram despercebidas, e Mazandarani apressou-se a clarificar a sua posição numa publicação posterior, pedindo desculpa à equipa por trás da série infantil:
“Claro que a Peppa Pig é genial e as pessoas que a fazem colocam todo o seu coração e alma nisto. Foi algo leviano e estúpido de dizer. Peço desculpa sem reservas por ter denigrado a Peppa Pig. Os meus comentários nasceram da frustração com um sistema fechado que priorizou um tipo de produção de animação no Reino Unido em detrimento de qualquer coisa que servisse um público mais maduro. Não é culpa da Peppa Pig. Desculpem”.
A clarificação é importante, mas não invalida o argumento central, o problema não é a qualidade do que se produz, mas sim a falta de espaço para conteúdo animado dirigido a adultos no mercado ocidental.
A lição de Cannon Busters
As observações de Mazandarani surgiram no contexto de uma conversa sobre Cannon Busters, série em que esteve envolvido através da Manga Entertainment. O projeto foi uma tentativa de ponte entre o ocidente e o Japão, os guiões e o storyboard foram desenvolvidos no ocidente, mas toda a animação foi executada no Japão, em japonês. O resultado foi uma produção difícil e, segundo Mazandarani, nem assim convenceu uma parte do público.
“Toda a animação, tudo, foi feito inteiramente no Japão em japonês. Mesmo assim, ainda sinto que, para uma minoria vocal nas redes sociais, não era anime suficiente, não era japonês suficiente”.
Com base nessa experiência, Mazandarani defende que os criadores ocidentais não deveriam depender automaticamente do Japão para produzir conteúdo ao estilo anime. O talento já existe no ocidente, o que falta é abertura da indústria para o usar de outra forma. O seu conselho é claro: “O meu conselho é que podem fazer coisas que são tipo-anime. Toda a indústria de animação 2D no mundo, as pessoas com quem vão trabalhar, a maioria entrou nisto porque são fãs de anime”.
A questão de o que constitui ou não anime é antiga e continua sem resposta consensual. Produções como Castlevania ou RWBY são frequentemente apresentadas como exemplos de anime ocidental, ou pelo menos de conteúdo inspirado em anime, mas continuam a gerar debate sobre autenticidade entre os fãs.
O que Mazandarani traz de novo a este debate não é a questão da definição, mas a do sistema, enquanto a indústria de animação ocidental continuar a canalizar o seu talento quase exclusivamente para conteúdo infantil, a pergunta de “porque é que o ocidente não faz anime” terá sempre a mesma resposta, não porque não pode, mas porque o mercado nunca lhe pede.








