
Houve um tempo em que Demon’s Souls, o jogo que deu origem a toda a saga que hoje conhecemos como Souls, esteve quase para nunca sair do Japão. E a razão para isso, segundo o próprio ex-responsável da Sony que tomou essa decisão, foi um erro de avaliação seu.
Shuhei Yoshida, que liderou durante anos as operações de estúdios da Sony Interactive Entertainment e atualmente trabalha como consultor de estúdios independentes, recordou o episódio numa palestra na CEDEC 2026, uma das maiores conferências de programadores do Japão. O relato foi divulgado pelo 4Gamer, que acompanhou a intervenção de Yoshida sobre mais de vinte jogos “incríveis” que atravessaram a sua carreira. Demon’s Souls foi um deles, embora, como o próprio admitiu, não tenha sido um dos casos em que participou ativamente no desenvolvimento.
Yoshida conheceu o jogo já em fase avançada de produção, no outono de 2008, pouco depois de regressar dos Estados Unidos ao Japão para apoiar o desenvolvimento da PS4. Na altura, a ideia que tinha do projeto era simples, um RPG de ação com ambientação fantástica, sem grande destaque face a outros títulos do género. Decidiu experimentar a build por si próprio e, ao fim de duas horas de jogo, praticamente não tinha avançado. Terá sido nesse momento que concluiu tratar-se de “um jogo pouco amigável”.
Com pouco entusiasmo gerado antes do lançamento, as divisões ocidentais da Sony, então ainda conhecida como SCE, decidiram não publicar Demon’s Souls fora do Japão. Tornou-se também evidente que a tiragem inicial de 20.000 unidades no mercado japonês não seria suficiente para o estúdio recuperar os custos de produção.
Apesar disso, a FromSoftware manteve-se firme no polimento do jogo, prolongando o desenvolvimento e lançando finalmente o título em fevereiro de 2009. A palavra rapidamente correu entre os jogadores japoneses de que se tratava de um jogo “incrivelmente divertido”, e as vendas começaram a subir. Foi esse boca a boca que despertou o interesse da Atlus e da Bandai Namco, que se propuseram publicar o jogo na América do Norte e na Europa, respetivamente, contribuindo assim para o sucesso internacional que Demon’s Souls viria a alcançar.
Quando a FromSoftware começou a planear aquele que se tornaria o seu próximo grande sucesso, Dark Souls, Yoshida diz já ter compreendido que o estúdio estava a construir um tipo de jogo fundamentalmente diferente, assente numa filosofia de design distinta da fórmula tradicional que habitua o jogador de forma progressiva às suas mecânicas. Essa compreensão, no entanto, chegou tarde, a FromSoftware acabaria por recusar a proposta da SCE para publicar Dark Souls, citando precisamente a falta de apoio dado a Demon’s Souls como justificação.
Olhando para o sucesso mundial que a FromSoftware viria a alcançar nos anos seguintes, Yoshida deixou uma reflexão pessoal sobre o desfecho:
“Gostaria de acreditar, ainda que possa ser apenas um desejo meu, que o facto de não termos continuado envolvidos acabou por resultar num desfecho melhor para a indústria dos videojogos e para os jogadores“.
Nos anos seguintes, a FromSoftware manteve-se maioritariamente ligada à Bandai Namco Entertainment para a publicação dos seus jogos fora do Japão, uma parceria que, de resto, tem gerado dores de cabeça à Kadokawa, atual empresa-mãe do estúdio, por parte de um acionista ativista crítico da dependência de terceiros na distribuição. Ainda assim, a Sony voltou a juntar-se à FromSoftware em dois momentos pontuais, no lançamento de Bloodborne para a PS4 e no projeto experimental em realidade virtual Déraciné.









