
A polémica em torno da adaptação anime de Mii-chan and Miss Yamada (Mii-chan and Yamada-san) ganhou um novo capítulo, depois de a Associação Japonesa de Autismo ter divulgado um parecer formal a criticar a forma como a obra retrata a personagem principal. O documento, intitulado “Uma Opinião Sobre o Mangá Concluído Mii-chan and Miss Yamada”, sustenta que as dificuldades reais de pessoas com deficiências de aprendizagem estão a ser “exploradas para o sucesso comercial (lucro)“.
O anúncio da adaptação, feito pela Kodansha e pelo comité de produção a 26 de julho, já vinha a gerar discussão acesa no Japão, tanto pela natureza sensível da história como por um efeito colateral inesperado, o nome “Mii-chan” começou a ser usado como termo depreciativo entre jovens japoneses para troçar de pessoas com deficiência mental.
A obra original, da autoria de Azuki Nene, é ambientada no bairro de diversão noturna de Tóquio e acompanha Mii-chan, uma jovem recém-contratada como host num clube, e a sua colega mais experiente, Yamada. Devido à sua condição, Mii-chan tem dificuldade em ler e acaba frequentemente por agir fora das normas sociais, o que lhe traz erros e é motivo de troça por parte de clientes e colegas. Yamada, por seu lado, tenta protegê-la e ajudá-la, dando origem a uma relação de dependência mútua entre as duas personagens. A história segue um rumo particularmente sombrio, com cenas de violência e exploração sexual. Embora o mangá nunca afirme explicitamente que Mii-chan tem uma deficiência, tanto a forma como é retratada como as declarações públicas da própria autora apontam para uma deficiência de desenvolvimento.
Foi precisamente por causa deste pano de fundo que a Associação Japonesa de Autismo decidiu tornar pública a sua posição, segundo o organismo, já chegaram relatos de casos em que o nome “Mii-chan” é utilizado no dia a dia para insultar pessoas com deficiência mental, algo que a associação considera motivo suficiente para se pronunciar sobre o assunto.
O parecer aponta ainda o dedo a um vídeo promocional publicado no canal de YouTube YanMaga Daily Life, da Kodansha, no qual editores da obra surgiam a fazer legendas do género “quero ver a Mii-chan sofrer um destino terrível” e “quero ver a escória deste mundo”. O vídeo acabou por ser tornado privado a 1 de agosto, mas a associação considera que a forma como foi concebido demonstra que a editora estava a incentivar um tipo de fruição voyeurista à custa do infortúnio da personagem.
Outro ponto de atrito prende-se com os suportes acrílicos “Real Mii-chan”, que mostram uma versão da personagem a chorar e seminua, distribuídos como prémio raro num sistema de sorteio. Para a associação, esta escolha equivale a “a admissão por parte da editora de que está a mercantilizar o sofrimento da personagem“, causando desconforto a quem tem familiares com deficiência.
Quanto a possíveis soluções, a associação considera insuficientes medidas como a classificação etária ou a transmissão fora dos canais de televisão generalistas, mostrando-se especialmente apreensiva face ao contexto que rodeia o mangá e à forma como temas igualmente delicados já foram tratados no passado. O documento termina com um apelo direto:
“Do ponto de vista da nossa associação, que procura proteger as pessoas com autismo, pedimos a vossa maior compreensão, para que não haja ridicularização nem desprezo pelas pessoas com deficiência, e para que não se façam troça dos seus irmãos ou familiares. Ao mesmo tempo, pedimos que as dificuldades do mundo real, físicas ou mentais, não sejam usadas como material para a obtenção de sucesso monetário, mas sim para encaminhar as pessoas que precisam de ajuda para o apoio necessário“.
Nem todas as reações a Mii-chan and Miss Yamada têm sido negativas. Há quem defenda a adaptação argumentando que exigir o seu cancelamento poria em causa a liberdade de expressão do meio, uma posição que tem dividido claramente a opinião pública japonesa desde o anúncio inicial. A própria Associação Japonesa de Autismo não é a primeira organização a manifestar-se, nas últimas semanas, outros grupos ligados à defesa dos direitos de pessoas com deficiência intelectual já tinham levantado preocupações semelhantes.
Do lado da produção, o comité responsável pelo anime de Mii-chan and Miss Yamada não emite qualquer comunicado novo desde a última publicação no X, a 27 de julho, na qual negava qualquer intenção maliciosa e prometia adotar precauções na forma como o material original é tratado no ecrã.

Mii-chan and Miss Yamada (Mii-chan and Yamada-san) começou a ser publicado em setembro de 2024 e na sua descrição podemos ler:
No coração de Shinjuku, existe uma variedade de clubes noturnos abertos a clientes que procuram uma noite de indulgência na companhia de belos acompanhantes. Yamada é uma dessas acompanhantes, trabalhando em part-time enquanto frequenta a universidade. Contudo, ultimamente, Yamada acha mais fácil tornar-se a anfitriã modelo do que uma aluna exemplar. Mantém-se reservada, segue as regras escritas e não escritas do trabalho de anfitriã e evita envolver-se com outras pessoas sempre que possível. Isto até Mii-chan entrar na sua vida por acaso.
Mii-chan é adorável, mas inútil. Não sabe ler nem escrever e é incrivelmente desastrada, estando sempre a fazer asneiras, o que lhe vale o ridículo tanto dos funcionários como dos clientes. Mas há algo na sua motivação inesgotável e na sua energia radiante que atrai Yamada, dando origem a uma amizade inesperada!









