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Kickstarter recua nas regras de conteúdo adulto, mas o problema continua sem solução

Kickstarter reverte regras de conteúdo adulto após protestos: o que mudou, o que continua igual e o papel da Stripe

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Durou menos de uma semana. O Kickstarter publicou um pedido de desculpas formal e anunciou que estava a reverter as novas regras de conteúdo para adultos que tinha divulgado cerca de uma semana antes, regras que tinham gerado uma onda de protesto entre criadores que dependem da plataforma para financiar projetos com conteúdo mais explícito.

O anúncio foi feito pelo COO da empresa, Sean Leow, num comunicado publicado no blog oficial com o título “Um pedido de desculpas: a repensar as nossas diretrizes de conteúdo adulto”. A linguagem usada é direta ao ponto de surpreender: “Honestamente? Nós estragamos tudo. As regras não tiveram o impacto que pretendíamos, e a resposta da nossa comunidade deixou-nos a saber alto e claro que errámos”.

O que é que as novas regras proibiam

As diretrizes lançadas a 12 de maio iam além do que era esperado. O Kickstarter sempre proibiu pornografia e conteúdo ilegal, mas a nova versão das regras tornava a lista consideravelmente mais específica, atos sexuais implícitos, nudez fotorrealista, conteúdo com linguagem “depreciativa” de cariz sexual, entre outros. A lista incluía ainda restrições que chegavam a pormenores bizarros, como a proibição explícita de certas expressões coloquiais utilizadas em títulos de obras para adultos.

Para criadores de banda desenhada para adultos, autores de ficção erótica e outros criadores de conteúdo maduro, as novas regras significavam na prática que projetos aprovados pelo próprio Kickstarter podiam agora ser suspensos com base em critérios mais vagos. Vários criadores reagiram publicamente. Mike Wolfer, autor de comics com décadas de carreira, escreveu uma carta aberta ao Kickstarter afirmando: “Devastaste o meu negócio com um e-mail, um negócio que construí desde 2014, em parceria com o Kickstarter”.

O caso do criador Luis Torres foi ainda mais concreto, a sua campanha para Pyro Vixen #1, que já tinha angariado mais de 10.000 dólares de 198 apoiantes, com 17 dias ainda por decorrer, foi suspensa a meio com os fundos bloqueados.

A culpa é da Stripe, e a Stripe não comenta

Leow admitiu no comunicado o que muitos já suspeitavam, as atualizações foram “principalmente motivadas por requisitos do nosso processador de pagamentos, Stripe”. A Stripe opera com as suas próprias regras de conformidade, regras que, segundo o COO do Kickstarter, são por sua vez moldadas por “um sistema mais vasto criado por instituições financeiras que regulam a forma como o dinheiro circula globalmente”.

O problema concreto era este, ao longo dos últimos meses, o Kickstarter tinha visto um número crescente de campanhas que já tinham sido aprovadas pela plataforma serem suspensas pela Stripe a meio do financiamento. Quando isso acontecia, os fundos ficavam em suspenso, por vezes semanas depois de uma campanha que os criadores tinham levado meses ou anos a preparar. A plataforma dizia interceder junto da Stripe em nome dos criadores, mas nem sempre com sucesso.

Face a esta realidade, a decisão que tomaram foi tentar “fechar a distância” entre as suas regras e as da Stripe, de forma a que os criadores só tivessem de navegar um conjunto de regras. O raciocínio era lógico. O resultado não foi.

Como o próprio Leow escreveu: “Era essa a intenção, mas a decisão que tomámos foi um abandono da essência da contracultura, do espírito “fuck the establishment” do Kickstarter, e isso deixou a nossa comunidade vulnerável”.

O recuo não resolve o problema de fundo

Com as regras anteriores restabelecidas, menos específicas, mais “básicas”, o Kickstarter reconhece que a situação continua a ser precária. A Stripe pode ainda assim suspender campanhas aprovadas pela plataforma em qualquer momento, antes do lançamento, durante o financiamento ou depois de terminado. A plataforma comprometeu-se a continuar a defender os criadores junto da Stripe e a ajudá-los a compreender que ajustes fazer para tornarem os seus projetos aceitáveis para o processador de pagamentos. Chamou à situação uma “solução temporária imperfeita”.

Como salvaguarda adicional, o Kickstarter publicou um guia de navegação das revisões de conteúdo adulto da Stripe, com exemplos práticos do que pode acionar uma revisão e como apresentar projetos de forma a reduzir esse risco.

O problema não é novo nem exclusivo do Kickstarter. Em 2025, o Steam começou igualmente a banir jogos por violarem as regras de “processadores de pagamentos e redes de cartões associadas”, afetando títulos com conteúdo para adultos, numa onda que, afetou também a plataforma Itch.io. Antes disso, a Mastercard e a Visa bloquearam o uso dos seus cartões no Pornhub e cortaram relações com a divisão publicitária da empresa-mãe MindGeek. O padrão é claro, as plataformas criativas ficam encurraladas entre os criadores que as alimentam e as infraestruturas financeiras que não querem ser associadas a determinados tipos de conteúdo.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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