InícioJapãoHikikomori estão a envelhecer e o Japão enfrenta um problema silencioso

Hikikomori estão a envelhecer e o Japão enfrenta um problema silencioso

O isolamento social no Japão deixou de ser um problema juvenil.

Shaking Tokyo movie screenshot Japão

Durante décadas, a imagem do hikikomori japonês foi quase sempre a mesma, um adolescente ou jovem adulto que se fechava no quarto, incapaz de enfrentar a escola, o emprego ou a sociedade. Essa imagem já não corresponde à realidade, e os números mais recentes confirmam-no com uma clareza incómoda.

A KHJ, conhecida formalmente como Federação Nacional de Famílias de Hikikomori do Japão, é uma organização sem fins lucrativos que acompanha reclusos sociais e as suas famílias. No final de agosto de 2023, a KHJ divulgou os resultados do seu inquérito anual, conduzido entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023, com base em 280 famílias, e os dados são perturbadores.

A idade média dos hikikomori inquiridos chegou aos 36,9 anos. Em 2014, quando o inquérito foi realizado pela primeira vez, esse valor era de 33,1 anos. São quase quatro anos de diferença numa década, o que significa que muitos destes indivíduos simplesmente nunca saíram do isolamento em que entraram quando eram jovens.

Mas a média esconde uma realidade ainda mais grave: 43,1% dos hikikomori nestas famílias já têm mais de 40 anos, e 12,7% têm 50 ou mais. O inquérito encontrou mesmo casos de hikikomori na casa dos 60 anos a ser sustentados por pais com 90.

Um problema com uma contagem decrescente

O termo hikikomori, que entrou no Dicionário Oxford de Inglês em 2010, descreve pessoas que se isolam da sociedade durante pelo menos seis meses. Alguns raramente saem do quarto; outros apenas saem para ir às compras ou para atividades pontuais. O denominador comum é a dependência quase total da família, sobretudo dos pais.

E é aí que reside o problema mais imediato. A idade média dos familiares que cuidam de um hikikomori, segundo o mesmo inquérito da KHJ, é de 66,3 anos, também em crescimento face a anos anteriores. Quando esses cuidadores morrem ou ficam incapacitados, os seus filhos ficam sem qualquer rede de apoio. É uma equação simples, mas com consequências que o Japão ainda não conseguiu resolver.

O problema tem até nome próprio, o “problema 8050”, pais nos seus 80 a sustentar filhos nos seus 50. Segundo dados do governo japonês, o Gabinete do Conselho de Ministros estimou em 2022 que cerca de 1,46 milhões de pessoas entre os 15 e os 64 anos vivem em situação de hikikomori, o que corresponde a aproximadamente 2% da população nessa faixa etária. Os dados apontam que mais de 25% dos casos mais recentes envolvem pessoas que se retiraram da vida social após a reforma.

Bullying, pressão académica e depois, o esquecimento

As causas mais frequentemente apontadas para o início do isolamento continuam a ser o bullying e a pressão académica ou profissional. Mas o que os dados mostram com crescente evidência é que, para muitos, o que começou como uma reação a uma situação de crise transformou-se numa condição crónica, que atravessou décadas sem resposta eficaz.

Mutsuko Hibana, co-representante da KHJ, foi direta na leitura dos resultados: “Existe uma perceção muito enraizada de que as medidas de apoio aos hikikomori devem centrar-se nos jovens, mas a realidade é que este não é um desafio limitado às gerações mais novas”.

A questão é que os programas de reintegração raramente foram desenhados a pensar em adultos de 40 ou 50 anos com décadas de isolamento acumuladas. A investigação académica mais recente, publicada nos National Institutes of Health, mostra que os hikikomori entre os 50 e os 64 anos têm em média 17,3 anos de retirada social, contra 10,6 anos nos grupos mais jovens. Apesar disso, após intervenção de apoio, os tempos de recuperação não diferem significativamente entre grupos etários, o que sugere que a ajuda, quando existe, pode funcionar, independentemente da idade.

A família como última linha de defesa

Em parte, a razão pela qual o problema permaneceu invisível durante tanto tempo tem a ver com a forma como o Japão lida com as questões sociais difíceis, como um assunto de família, antes de qualquer outra coisa. Os pais japoneses tendem a assumir a responsabilidade pelo cuidado de filhos adultos em isolamento, absorvendo os custos económicos e emocionais sem recorrer a serviços externos. É uma postura que parte de um sentido profundo de dever, mas que também adia, sistematicamente, a procura de soluções estruturais.

O Japão aprovou em 2023 a Lei de Promoção de Medidas contra a Solidão e o Isolamento, que entrou em vigor em abril de 2024. Mas a distância entre legislação e intervenção real, sobretudo para adultos de meia-idade e idosos em isolamento, continua a ser enorme.

O relógio não para. E para muitas destas famílias, o tempo está mesmo a esgotar-se.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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Koo
Koo
3 , Maio , 2026 13:36

Só vagabundo, o Japão romantiza vagabundos

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