
Há muito que atores de renome participam em videojogos, mas raramente o fazem com o mesmo entusiasmo com que falam do seu trabalho em cinema ou televisão. Andy Serkis é uma das exceções, e agora, depois do sucesso retumbante de Clair Obscur: Expedition 33, tem muito a dizer sobre o que mudou.
Em entrevista à Variety, o ator britânico conhecido pelo papel de Gollum na trilogia de O Senhor dos Anéis foi explícito: “Não vejo qualquer diferença entre isso e representar em filmes, no palco ou na televisão. É exatamente a mesma coisa. Abordas a personagem e constróis a personagem da mesma forma”.
De Heavenly Sword a Expedition 33
Serkis não é um recém-chegado ao mundo dos videojogos. A sua primeira experiência remonta a 2007, com Heavenly Sword, desenvolvido pela Ninja Theory para a PlayStation 3, onde deu vida ao antagonista Rei Bohan. Na altura, o ambiente era radicalmente diferente. “Naquele momento, os atores olhavam para os videojogos como, ‘Eu não me envolveria num videojogo'”, recordou à Variety. “Agora, os jovens atores a sair das escolas de teatro dizem: ‘Quero mesmo estar num videojogo'”.
O sucesso de Clair Obscur, onde interpretou Renoir, parece ter acelerado essa mudança. “Adoro a ideia, mas adoro os visuais. Achei simplesmente belo e estou muito feliz pelo sucesso deles”, disse sobre o RPG da Sandfall Interactive.
O snobismo que ainda existia e como está a mudar
O ponto mais direto de Serkis foi sobre a hierarquia que durante décadas colocou o cinema acima dos videojogos como forma de expressão artística: “Sempre existiu aquele snobismo sobre os videojogos não terem nada a ver com o cinema, mas isso está tudo a mudar. Certamente, olhando para o futuro quando tivermos narrativas mais imersivas, o que é o que está a acontecer”.
A ironia, segundo o ator, é que Hollywood já usa há muito tecnologia desenvolvida para jogos, só que sem o admitir abertamente: “A ironia é que Hollywood usa motores de videojogos para conduzir todas as pré-visualizações de todas as grandes sequências de ação em todos os filmes”. O mesmo acontece com cinematógrafos que usam esses motores para posicionar fontes de luz, luz da lua ou do sol, antes de filmar uma única cena real.
Para Serkis, que construiu grande parte da sua carreira em captura de movimento, a fronteira entre os dois mundos sempre foi mais ténue do que o resto da indústria quis reconhecer.
Que Clair Obscur: Expedition 33 tenha gerado este tipo de declarações não é surpreendente quando se olha para os números. O jogo da Sandfall Interactive, um estúdio com cerca de 30 pessoas, foi lançado em abril de 2025 e chegou ao primeiro aniversário com mais de 8 milhões de cópias vendidas. Ganhou o prémio de Jogo do Ano na edição de 2025 dos The Game Awards, onde arrecadou nove galardões, um recorde para um único título na história da cerimónia. A banda sonora, composta por Lorien Testard, ultrapassou as 600 milhões de streams.
O elenco do jogo, que inclui também Charlie Cox, o Daredevil da Marvel, e Jennifer English, recebeu elogios generalizados pela qualidade das interpretações. Cox chegou a revelar que vai participar num novo videojogo, tendo descrito a experiência em Expedition 33 como algo que lhe “abriu uma nova avenida”.
O argumento de que videojogos são arte não é novo, é apenas um que demorou décadas a ganhar a atenção das pessoas certas.






