InícioAnime10 animes que perderam tudo no final

10 animes que perderam tudo no final

Existe uma crueldade muito específica em acompanhar um anime durante semanas, às vezes meses ou anos, e ver a série deteriorar-se precisamente quando mais importa, nas últimas horas.

10
The Promised Neverland

The Promised Neverland vol 1 cover (1)

A primeira temporada de The Promised Neverland foi um fenómeno. A premissa, um grupo de crianças que descobre que o orfanato onde vivem é, na realidade, uma quinta que as cria como alimento para demónios, era perturbadora, inteligente e executada com uma precisão narrativa invulgar. A tensão nunca parava, as personagens eram complexas, e a série prometia uma segunda temporada que poderia ser ainda melhor. Não foi.

A segunda temporada, produzida pelo estúdio CloverWorks, tomou uma decisão que os fãs do mangá ainda não digerem, saltou por cima do arco de Goldy Pond, uma das histórias mais elogiadas de toda a obra original. Com mais de 40 capítulos, este arco era essencial para o desenvolvimento de Emma enquanto personagem, introduzia antagonistas memoráveis e expandia o universo da série de forma significativa. No anime, simplesmente desapareceu. Yuugo, uma das personagens mais importantes desta fase da história, nunca existiu para quem só acompanhou a adaptação.

O resultado foi uma segunda temporada que condensou mais de 140 capítulos de mangá em apenas onze episódios, eliminando camadas inteiras de desenvolvimento emocional e criando um final praticamente incompreensível para quem não tinha lido a obra original. Os fãs do mangá ficaram furiosos. Os espectadores que não o tinham lido ficaram simplesmente confusos. Uma série que podia ter sido lembrada como uma das melhores adaptações da sua geração ficou marcada por um dos colapsos mais comentados da história recente do anime.

9
Neon Genesis Evangelion

Neon Genesis Evangelion anime visual

Trinta anos depois da sua estreia, Neon Genesis Evangelion continua a ser uma referência obrigatória para qualquer pessoa que queira falar a sério sobre anime. A série de Hideaki Anno redefiniu o género mecha, introduziu uma abordagem ao trauma e à identidade que nenhuma outra série da época ousou tentar, e criou personagens que ainda hoje geram debates apaixonados. Mas o final da série televisiva original é, até hoje, um dos temas mais divisivos de toda a cultura do anime.

O que aconteceu nos bastidores ajuda a contextualizar, mas não alivia a frustração. A produção da Gainax enfrentou sérios problemas de tempo, não apenas de orçamento, como o mito popular sugere, e os episódios 25 e 26 tomaram uma direção completamente diferente do que estava planeado. Em vez de um confronto épico, os espectadores receberam uma viagem introspetiva ao interior da mente de Shinji, abstrata, filosófica, deliberadamente desprovida de resolução convencional. A reação dos fãs foi tão violenta que as instalações da Gainax foram vandalizadas, e Anno chegou a receber ameaças de morte.

A Gainax acabou por lançar The End of Evangelion em 1997, um filme que apresenta uma versão alternativa e muito mais visceral do final. Só que esse filme gerou a sua própria polémica. Décadas depois, ainda não há consenso sobre qual das versões é a “certa”, o que, em certa medida, pode ser lido como um sinal de que a série nunca quis mesmo dar respostas fáceis.

8
Wonder Egg Priority

Wonder Egg Priority

Quando Wonder Egg Priority estreou em 2021, havia qualquer coisa naquela série que parecia genuinamente especial. A história de Ai, uma menina que compra ovos mágicos para reviver amigas que morreram, era uma abordagem corajosa a temas como o suicídio, o luto e o bullying, tudo envolto numa estética visual deslumbrante e numa narrativa que sabia equilibrar o fantástico com o emocional. Durante as primeiras semanas, era o anime de que toda a gente falava.

O colapso foi gradual, mas implacável. A qualidade da animação começou a degradar-se visivelmente. Tramas secundárias que pareciam importantes foram abandonadas sem explicação. O destino de Koito, a amiga cuja morte motivava toda a jornada de Ai, ficou sem resolução. E quando a série chegou ao fim, em vez de respostas, os fãs receberam um OVA lançado meses depois que não só não resolveu nada como acrescentou ainda mais confusão ao que já era um final caótico.

O que tornou a queda de Wonder Egg Priority particularmente dolorosa foi o contraste com o que tinha sido. Uma série que tratou temas delicados com seriedade e sensibilidade nos primeiros episódios acabou por abandonar as suas próprias personagens antes de terminar. Hoje é lembrada sobretudo como um exemplo do que podia ter sido e não foi.

7
DARLING in the FRANXX

DARLING in the FRANXX terá 24 episódios

DARLING in the FRANXX nunca foi uma série simples de defender. Desde o início que era polarizadora, a dinâmica entre Hiro e Zero Two gerava devoção intensa em alguns fãs e irritação em outros, e as escolhas narrativas do estúdio Trigger nem sempre convenceram. Mas havia ali algo genuíno na relação central da série, e durante a maior parte da sua exibição havia razões para continuar a ver.

O arco final destruiu grande parte desse investimento. Numa série que até então tinha funcionado como um drama de ficção científica distópica com personagens bem construídas, a introdução súbita de alienígenas como antagonistas finais pareceu vinda de outra série completamente diferente. O conflito deslocou-se para o espaço, o tom mudou radicalmente, e o que se seguiu foi uma sequência de eventos que muitos fãs sentiram como arbitrária e emocionalmente vazia.

A morte de Hiro e Zero Two foi provavelmente a decisão mais contestada. Para uma parte da audiência, foi uma conclusão trágica mas coerente com os temas da série. Para outra, e esta parece ser a maioria, foi uma escolha que sabotou o arco emocional das duas personagens centrais sem oferecer uma justificação narrativa convincente. O debate continua, mas o sentimento predominante é de oportunidade desperdiçada.

6
Platinum End

O nome de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, os criadores de Death Note, abria portas. Platinum End chegou com expectativas naturalmente elevadas, a premissa de um adolescente em crise que recebe poderes de um anjo e é arrastado para uma batalha pela posição de Deus tinha todos os ingredientes para um thriller psicológico à altura do legado dos seus autores. A série nunca chegou a esses patamares, mas os fãs aguentaram-se com a esperança de que o final redimisse o percurso.

Não redimiu. Shuji Nakaumi torna-se o novo Deus e, de imediato, suicida-se, destruindo o universo inteiro no processo. É o tipo de desfecho que pode funcionar em contextos específicos, quando está construído ao longo de toda a narrativa com intenção clara. Aqui pareceu uma decisão tomada sem que a série tivesse feito o trabalho emocional necessário para a sustentar. A resposta dos fãs foi, na melhor das hipóteses, de desconcerto. Na pior, de irritação genuína por ter investido tempo numa série que se revelou não saber onde queria chegar.

5
Akame ga Kill!

Akame ga Kill! nunca fingiu ser uma série reconfortante. A morte de personagens era uma constante, o mundo era sombrio, e os protagonistas operavam numa zona moral complexa que a série explorava com honestidade. Era esse tom que tornava a série interessante, e que tornava o final do anime ainda mais desconcertante.

Quando a adaptação ultrapassou o material disponível no mangá, o estúdio White Fox optou por um final original que matou praticamente toda a gente. O problema não foi a tragédia em si, era perfeitamente compatível com o espírito da série. O problema foi a forma como foi executada, apressada, sem o peso emocional que as mortes anteriores tinham tido, e sem a coerência temática que distinguia os melhores momentos de Akame ga Kill!.

O mangá, que terminou de forma independente, conseguiu manter o mesmo tom sombrio sem abdicar da satisfação narrativa. O anime não teve essa sorte, ou esse cuidado. Para quem tinha acompanhado a série precisamente pelo seu equilíbrio entre crueldade e significado, o final original foi uma deceção difícil de engolir.

4
Naruto Shippuden

Naruto Shippuden temporada 9 na SIC Radical

Naruto foi, para uma geração inteira, muito mais do que um anime. Foi uma companhia. Acompanhar Naruto Uzumaki desde a infância até à sua maturidade era um investimento afetivo de anos, e a Quarta Grande Guerra Shinobi, o arco final da série, tinha todas as condições para um encerramento memorável. Os ingredientes estavam lá, o confronto com Madara era épico, o arco de Kakashi e Obito era emocionalmente forte, e havia personagens suficientemente bem construídas para tornar cada batalha significativa.

O que falhou? A introdução de Kaguya como antagonista final, surgindo de forma abrupta quando o duelo com Madara estava no seu ponto mais alto, tirou o chão aos fãs. A sensação de que o verdadeiro clímax tinha sido trocado por outra coisa nunca desapareceu por completo. A isso somou-se uma resolução apressada dos arcos românticos, nomeadamente entre Naruto e Hinata, que mereciam muito mais do que receberam.

Para uma série que durante anos soube construir personagens com profundidade e paciência, o final pareceu não confiar na audiência para acompanhar um desfecho mais cuidado. A nostalgia mantém Naruto Shippuden num lugar especial para muita gente, mas a maioria admite, quando pressionada, que o final ficou aquém do que a série merecia.

3
Erased

Erased anime visual

Erased tinha uma das premissas mais sedutoras do anime da sua época. Um homem adulto que regressa ao seu eu de criança para impedir uma série de raptos e assassinatos, uma mistura de thriller policial, ficção científica e drama emocional que funcionava de forma quase perfeita nos seus melhores momentos. A atmosfera era densa, a tensão raramente abrandava, e a série parecia saber muito bem para onde estava a ir.

O problema é que a maioria dos espectadores atentos percebeu para onde ia antes de lá chegar. A identidade do antagonista era telegrafada com demasiada clareza desde os primeiros episódios, o que transformou a grande revelação numa não-surpresa. E quando chegou a hora de resolver o mistério, a série optou pelo drama emocional em detrimento da lógica narrativa, um erro particularmente caro para uma série que tinha construído a sua reputação precisamente na inteligência com que desenvolvia os seus mistérios.

O final de Satoru, em coma e depois acordando numa realidade alterada, teve o seu valor emocional. Mas não chegou para compensar a sensação de que Erased tinha desistido de ser o thriller que prometera ser, trocando a tensão cuidadosamente construída por uma resolução que parecia mais preocupada em emocionar do que em fazer sentido.

2
Soul Eater

Soul Eater

Soul Eater é uma das séries de ação mais criativas que o anime produziu na sua época. O universo era original, os designs eram inconfundíveis, as personagens tinham personalidade própria, e havia uma energia nas batalhas que poucas séries conseguiram replicar. Durante grande parte da sua exibição, era difícil não adorar Soul Eater.

O arco final do anime foi criado de raiz pelo estúdio Bones, que entretanto tinha ultrapassado o material do mangá. E o problema não foi apenas o facto de ser um final inventado, o problema foi a forma como resolveu o conflito central da série. Toda a construção de Maka enquanto personagem, a sua relação com Soul, o desenvolvimento das outras duplas protagonistas, tudo isso foi colocado de lado para que Maka pudesse derrotar Asura, o vilão final, através do poder da amizade.

Numa série que tinha sido tão cuidadosa a construir uma mitologia própria e personagens com motivações complexas, foi uma conclusão que soou a vazio. O final do mangá, apesar de ter os seus próprios problemas, pelo menos mantinha a coerência temática da série. O do anime não demonstrou a mesma preocupação e os fãs não esqueceram.

1
Death Note — Parte II

Death Note visual anime

Death Note é uma das séries mais aclamadas da história do anime, e a sua primeira parte, o duelo de inteligências entre Light Yagami e L, é frequentemente citada como uma das sequências mais bem escritas de toda a animação japonesa. A morte de L, no final do primeiro arco, é um momento que poucos espectadores esquecem. O problema é que esse momento marcou também o início de um declínio que a segunda parte nunca conseguiu reverter completamente.

Near não convenceu como substituto de L, não porque fosse uma má personagem, mas porque o nível de comparação era impossível de superar. A segunda parte da série funcionou sempre na sombra do que tinha sido, e essa sensação persistiu até ao final. A revelação da identidade de Light como Kira perante a Task Force, e a morte subsequente num armazém enquanto ria sozinho, foi interpretada de formas completamente opostas, para uns, uma conclusão tematicamente coerente sobre a corrupção pelo poder absoluto; para outros, uma humilhação gratuita de uma personagem que merecia uma saída mais digna.

É raro um final dividir tanto os fãs de uma mesma obra. Há quem prefira o desfecho do mangá, ligeiramente diferente na sua execução, e há quem defenda que o anime acertou na mensagem mesmo que tenha errado nalguns detalhes. O que é certo é que, mais de vinte anos depois, a discussão continua, o que diz algo sobre a força da série, mas também sobre as dúvidas que o seu final deixou por responder.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

Artigos Relacionados

Subscreve
Notify of
guest

0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente
Inline Feedbacks
View all comments
- Publicidade -

Notícias

Populares