
Há um novo símbolo do excesso de turismo no Japão, e não é uma fila à porta de um templo nem turistas a perturbar uma cerimónia tradicional. É uma mala de viagem abandonada na calçada, encostada a um poste, metida na fresta entre dois prédios, ou deixada mesmo por baixo da placa que proíbe o abandono de resíduos.
É o que se passa num bairro residencial do distrito de Toshima, a poucos minutos a pé da estação de Ikebukuro, em Tóquio. Nos últimos tempos, a área registou uma proliferação de alojamentos locais, os chamados minpaku, que atraíram uma vaga crescente de turistas estrangeiros. Com eles chegou um problema que os moradores descrevem como exasperante, malas de viagem abandonadas em número crescente e sem parar.
“Não sei o que está lá dentro e não posso abri-las. É assustador e perturbador”, disse um residente irritado ao semanário japonês Shukan Shincho na edição de 30 de abril. “Além disso, não é uma ou duas. Mesmo que reportemos e as removam, elas aparecem outra vez antes que nos apercebamos. É um jogo do gato e do rato”.
O fenómeno não se limita a casos pontuais. Uma curta volta pelo bairro revela bagagens deixadas nos pontos de recolha de lixo, encostadas a fachadas de edifícios e abandonadas nas entradas de prédios. As autoridades instalaram placas de aviso em japonês, inglês, chinês e coreano. Não adianta muito. “As malas aparecem mesmo ao lado das placas, ou mesmo diretamente por baixo delas”, acrescentou o mesmo morador ao Shukan Shincho.
A explicação mais plausível é relativamente simples, turistas que compram bagagem maior ou de melhor qualidade durante a estadia no Japão optam por deixar as malas antigas na rua em vez de se darem ao trabalho de as descartar de forma adequada, o que, num país com regras de separação de resíduos tão específicas como o Japão, implica seguir um processo que muitos visitantes desconhecem ou preferem ignorar.
Em 2025, o Japão recebeu cerca de 42,68 milhões de visitantes estrangeiros, um recorde histórico e um aumento de cerca de 15,8%. Para 2026, as projeções continuam elevadas, apesar de uma ligeira quebra esperada na componente chinesa do turismo.
O problema das malas abandonadas não é inteiramente novo nem exclusivo de Ikebukuro. A Nikkei Asia reportou em agosto de 2025 que hotéis, aeroportos e comunidades em várias zonas turísticas do país já lidavam com esta questão, com bagagens a aparecer em quartos de hotel, corredores e espaços públicos. O que mudou em Ikebukuro é a concentração e frequência do fenómeno num bairro essencialmente residencial, onde os moradores não têm ligação direta ao turismo e suportam os custos sem partilhar os benefícios económicos.
O distrito de Toshima não é caso único no debate mais amplo sobre o impacto do turismo de massas no Japão. Quioto tornou-se o símbolo mais mediático desse debate, com relatos de turistas a perturbar zonas históricas e a sobrecarregar os transportes públicos. Mas a escala do turismo japonês, que o governo central quer elevar para os 60 milhões de visitantes anuais até 2030, significa que os efeitos se alastram a zonas cada vez mais afastadas dos circuitos tradicionais.
Por agora, os moradores de Toshima continuam a reportar malas, a esperar que as removam, e a vê-las reaparecer.









