
Muito antes de Totoro, Chihiro ou Ponyo, Hayao Miyazaki pegou em pincéis e aguarelas para contar uma história que ficou, durante décadas, à margem do grande público ocidental. É essa obra, A Viagem de Shuna (Shuna’s Journey ou Shuna no Tabi), que a TopSeller, chancela da Penguin Random House Portugal, vai trazer para as livrarias portuguesas em outubro de 2026.
O anúncio marca a primeira edição portuguesa de um trabalho que, apesar da assinatura de um dos criadores mais influentes da animação mundial, só começou a ganhar visibilidade fora do Japão nos últimos anos.
A Viagem de Shuna nasceu em 1983, publicada pela Tokuma Shoten sob o selo Animage Ju Ju Bunko, no mesmo período em que Miyazaki dava os primeiros passos em Nausicaä do Vale do Vento. É importante situar bem o que esta obra é, e o que não é, apesar de por vezes ser apresentada como uma novel gráfica no sentido literário do termo, não se trata de um romance tradicional. A classificação mais comum é a de mangá, mais especificamente, um mangá ilustrado inteiramente em aguarela, ou romance gráfico, uma vez que dispensa o traço a preto e branco típico da grande maioria das publicações do género.
Em termos técnicos, o formato original japonês tem uma designação própria, emonogatari, um termo que junta as palavras para imagem e narrativa, e que descreve obras onde a ilustração assume um papel tão central quanto o texto na construção da história. Foi publicado como um volume único e não como uma série de capítulos ao longo do tempo.
A história acompanha Shuna, príncipe de uma pequena região empobrecida, que decide arriscar tudo numa viagem até terras longínquas depois de um viajante moribundo lhe falar de sementes douradas capazes de acabar com a fome do seu povo. Pelo caminho, cruza-se com Thea, uma jovem que liberta do cativeiro, e acaba por chegar a um território dominado por uma civilização tão avançada quanto sombria.
Miyazaki reconheceu, no posfácio original de 1983, que a narrativa parte de um conto popular tibetano conhecido como O Príncipe que se Tornou um Cão, adaptado depois com elementos que viriam a marcar praticamente toda a sua obra posterior, a relação entre natureza e progresso, os voos sobre paisagens vastas, as personagens jovens que carregam o peso de decisões de adultos.
Do esquecimento ao reconhecimento internacional
Durante quase quatro décadas, A Viagem de Shuna manteve-se praticamente confinada ao Japão. A mudança começou em fevereiro de 2022, quando a editora norte-americana First Second Books anunciou a licença para uma edição em inglês, traduzida por Alex Dudok de Wit, ligado à produção de A Tartaruga Vermelha, coproduzida pelo Studio Ghibli. Essa edição, lançada a 1 de novembro de 2022, entrou na lista de bestsellers do New York Times e viria a conquistar o Eisner Award de melhor edição norte-americana de material internacional da Ásia em 2023, além de uma nomeação aos Harvey Awards nesse mesmo ano.
O reconhecimento nos Estados Unidos abriu caminho a outras edições europeias:
- Espanha, pela Salamandra Graphic, com uma edição de capa dura seguida de uma versão especial limitada
- Itália, pela Bao Publishing, primeiro em capa dura e mais tarde, em 2025, numa versão de capa tradicional
- Alemanha, pela Reprodukt
- Taiwan, pela Dongmai, já em mandarim, em 2024
- França, com uma nova edição de bolso lançada em 2025
Portugal junta-se agora a este grupo de mercados que resgataram uma obra que funciona quase como uma chave de leitura para compreender o resto da carreira de Miyazaki. Uma história que antecipa grande parte do trabalho posterior do autor, ainda que se mantenha completa e independente por si só.
Para quem conhece os animes de Hayao Miyazaki, várias imagens de A Viagem de Shuna vão parecer familiares. Os vales áridos, as criaturas que misturam fascínio e ameaça, os deuses distantes que observam os humanos com indiferença, tudo isto reaparece, transformado, em títulos como Nausicaä do Vale do Vento ou A Princesa Mononoke.
A ligação mais direta, no entanto, é com Goro Miyazaki, filho do autor, a obra terá servido de inspiração parcial para o filme Contos de Terramar, de 2006, dirigido por Goro para o Studio Ghibli.









