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A Netflix continua a cometer o mesmo erro com as suas séries mais populares

Estudo revela o tempo máximo que uma série pode esperar sem perder audiência

Alan Ritchson screenshot Netflix War Machine

Há uma fórmula que se repete série atrás de série na Netflix, um sucesso instantâneo, uma espera de dois ou três anos pela temporada seguinte e, quando esta finalmente chega, uma fatia significativa do público já desapareceu. Um novo relatório da consultora de dados de entretenimento Luminate Intelligence confirma agora, com números concretos, algo que críticos e analistas já vinham apontando há algum tempo, quando o intervalo entre temporadas ultrapassa ano e meio, a audiência começa a encolher de forma consistente.

Segundo a Luminate, um dos benefícios que um hiato longo pode trazer é reforçar o interesse pelas temporadas anteriores à medida que a estreia de novos episódios se aproxima, com o público a rever o que já viu antes de continuar a história. Mas esse efeito é a exceção, não a regra, nos casos analisados pela consultora, praticamente todos os títulos perderam audiência de uma temporada para a seguinte, avaliando os números de visualização nas primeiras 12 semanas após a estreia.

Alguns dos exemplos mais marcantes:

  • Wednesday (2ª temporada): depois de um intervalo de 2,75 anos, a audiência caiu 59% face à primeira temporada, ficando pelos 22,1 milhões de visualizações nos Estados Unidos
  • The Night Agent (2ª temporada): um hiato de 1,8 anos custou 47% de audiência ao thriller, que ficou pelos 16,5 milhões de visualizações
  • Stranger Things (5ª temporada): mesmo um dos maiores fenómenos da Netflix não escapou, com uma quebra de 23% depois de 3,5 anos de espera entre a quarta e a quinta temporada
  • Bridgerton: a terceira temporada aguentou razoavelmente bem um intervalo de dois anos, perdendo apenas 7% de audiência, mas a quarta caiu 20% após um hiato de 1,75 anos
  • Ginny & Georgia (3ª temporada): queda de 19% depois de dois anos e meio de espera, totalizando 13,3 milhões de visualizações

O problema também não é exclusivo da Netflix. Na Prime Video, a segunda temporada de The Lord of the Rings: The Rings of Power caiu 57% depois de um intervalo de dois anos face à primeira.

Nem tudo são más notícias para as séries com regresso adiado. A Luminate identifica um efeito de reencontro, em que o público revê temporadas antigas nas semanas que antecedem a estreia de episódios novos, e Stranger Things é o exemplo mais claro disso, nos meses antes da quinta temporada, as primeiras quatro registaram um pico enorme de minutos vistos nos Estados Unidos, algo que a consultora associa ao facto de a série ter uma mitologia extensa e altamente serializada, o que convida a este tipo de revisão.

O mesmo padrão parece estar a acontecer agora com The Gentlemen, a série de Guy Ritchie. A segunda temporada teve uma estreia fraca, com uma queda de 45% no CVE (equivalente a visualização completa) face à primeira temporada, mas isso coincidiu com o regresso da primeira temporada ao top 10 global, na quinta posição, somando 21,2 milhões de horas visualizadas. Ou seja, uma parte do público que normalmente veria a nova temporada acabou a rever a antiga primeiro. A Luminate sublinha, no entanto, que este efeito de reencontro não está garantido nem mesmo para grandes êxitos, dando como exemplo o facto de Bridgerton não ter registado o mesmo tipo de pico no catálogo antigo antes da quarta temporada.

A resposta óbvia: voltar ao ritmo anual

Se as pausas longas prejudicam o interesse do público, a solução mais evidente passa por encurtar o intervalo entre temporadas, e há sinais de que a indústria está a caminhar nessa direção. Depois de anos de atrasos consecutivos entre temporadas de séries de sucesso, o pêndulo parece estar a inverter-se, com um regresso gradual a um ritmo de lançamento anual.

Dois exemplos fora da Netflix ilustram bem o benefício dessa estratégia: The Pitt, da Max, e Landman, da Paramount, regressaram praticamente um ano depois da estreia e viram a audiência crescer 132% e 52%, respetivamente.

Ainda assim, replicar esse ritmo não é fácil para produções de grande escala, com efeitos visuais complexos, agendas de atores difíceis de conciliar e dobragens em dezenas de idiomas, fatores que tendem a empurrar os ciclos de produção para perto dos dois anos.

Há também um alerta importante no relatório sobre o que acontece quando o dano já está feito. The Night Agent voltou com uma terceira temporada apenas um ano depois da segunda, um intervalo bem mais curto do que o anterior hiato de 1,8 anos. Ainda assim, a audiência voltou a cair, desta vez 22%, uma quebra que a Luminate associa diretamente ao facto de a série já ter perdido uma fatia importante do público na transição da primeira para a segunda temporada. Recuperar espetadores depois de um longo silêncio, mostra o relatório, é muito mais difícil do que evitar perdê-los à partida.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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