
Poucos nomes têm tanto peso na história recente do anime como Shinichiro Watanabe, o diretor responsável por Cowboy Bebop e Samurai Champloo. Quase quatro décadas depois de ter entrado na indústria, Watanabe decidiu que era altura de dizer aquilo que pensa sobre o estado atual da animação japonesa, e não foi meigo nas palavras.
As declarações surgem numa série de entrevistas exclusivas incluídas no seu novo livro de retrospetiva de carreira, intitulado “The World of Shinichiro Watanabe: From Cowboy Bebop to Lazarus”, cujo lançamento coincidiu com o fim de Lazarus, o mais recente projeto do diretor.
Uma indústria acusada de falta de “diversidade” criativa
Para Watanabe, o principal problema da animação japonesa atual não está na quantidade de produções, mas sim na falta de originalidade que as acompanha. “As pessoas dizem que agora há mais anime do que nunca, que isso é uma coisa boa. Mas eu discordo completamente”, afirmou o diretor. “É tudo gente a fazer a mesma coisa, e não vejo qualquer diversidade nisso. Também nos filmes, vemos cada vez mais o mesmo tipo de filmes”.
Esta crítica ganha um significado particular quando associada ao próprio percurso de Lazarus, a série lançada no ano passado e que, apesar de todo o reconhecimento habitual do trabalho de Watanabe, também gerou alguma polémica. A história decorre numa sociedade distópica onde milhões de pessoas dependem de uma droga chamada Hapuna para se libertarem da doença e da dor, até que o seu criador, o Dr. Skinner, revela que o medicamento foi concebido para matar quem o toma ao fim de três anos, um castigo desenhado como resposta aos pecados da humanidade. Skinner desafia então quem tiver coragem a encontrá-lo e a convencê-lo a libertar a cura.
Lazarus manteve muitas das características que tornaram Cowboy Bebop um sucesso global, do elenco psicologicamente complexo às sequências de ação coreografadas com grande cuidado, passando por uma banda sonora animada e de inspiração jazz. Ainda assima série anime enfrentou críticas de uma minoria vocal que a acusou de veicular uma mensagem “progressista” junto do público.
Para Watanabe, o problema não está apenas na uniformidade criativa, mas também no ambiente hostil que as redes sociais criaram à volta de quem tenta arriscar. O diretor manifestou receio de que os “jovens diretores” não consigam singrar num contexto onde é cada vez mais difícil ignorar críticas e reações negativas. “Acho que se tornou uma era assustadora para trabalhar nisto… se estiveres sempre a olhar para este tipo de reações, não vais conseguir criar trabalho novo”, declarou.
Esta preocupação não surge isolada. Outros críticos da indústria têm apontado problemas semelhantes, sobretudo relacionados com a repetição de clichés e arquétipos de personagens já desgastados. A isto soma-se uma tendência cada vez mais evidente para reboots e revivals de séries populares das décadas de 80 e 90. Um relatório oficial do Anime Data Insights Lab do Japão, divulgado no ano passado, previa mesmo uma “aceleração” da tendência de remakes de anime em 2026 e nos anos seguintes, uma vez que as produtoras tendem a preferir apostar em propriedades intelectuais já estabelecidas em vez de arriscar em material original.
É precisamente aí que a trajetória de Watanabe se destaca, já que o diretor construiu praticamente toda a sua carreira em torno de obras originais, um caminho que o próprio reconhece não ter sido fácil. “Não consegui fazer tudo isto porque tive sorte; tive de lutar por tudo… vais perceber isso se leres o livro”, explicou.
O diretor deixou ainda uma mensagem dirigida às gerações mais novas de criadores que sonham em seguir um percurso semelhante ao seu: “Quando alguém te diz para fazeres algo diferente, tu simplesmente dizes não. Quero mostrar aos jovens criadores que, se tiverem determinação e força de vontade suficientes, conseguem alcançar a sua visão”.








