
Quando George Wada, presidente do WIT Studio e da Production I.G, foi questionado sobre The One Piece, o remake do anime baseado no mangá de Eiichiro Oda que o estúdio está a produzir para a Netflix, não se limitou a dar respostas diplomáticas. Numa entrevista, Wada expôs com rara clareza as motivações por detrás do projeto, o que vai mudar em relação ao original da Toei Animation e o que está verdadeiramente em jogo.
A origem do projeto não veio da Netflix nem do WIT Studio. Veio do próprio Oda. “A razão pela qual decidimos fazer o remake de One Piece foi algo que o autor, Eiichiro Oda, disse”, explicou Wada. Oda expressou a sua preocupação de que a série, com quase 30 anos e mais de mil episódios, já não consiga alcançar as gerações mais novas da mesma forma que alcançou as anteriores. A animação dos primeiros arcos, o formato 4:3, o ritmo arrastado, tudo isso cria uma barreira de entrada que o autor reconhece e que o incomoda. Segundo Wada, foi esse sentimento de Oda que motivou o projeto.
A promessa central é clara, um anime mais denso, mais rápido e visualmente atualizado. “Na obra original, o mangá era incrível e o anime era ótimo, mas havia alguns elementos desatualizados que não correspondiam aos padrões de produção modernos”, disse Wada. “Os episódios mais recentes melhoraram, mas as partes iniciais não. Por isso, vamos usar técnicas modernas e reestruturá-las para atrair novos públicos”. Sobre o ritmo, foi ainda mais direto: “Sim, o remake será compacto, sem esticamento desnecessário”.
Ao mesmo tempo, Wada deixou claro que o objetivo não é apagar o que a Toei construiu ao longo de décadas. “Queremos criar One Piece com a mesma força e qualidade, respeitando plenamente a Toei Animation e o seu trabalho árduo”, afirmou. O respeito pelo trabalho original é um tema recorrente nas suas declarações, mas não impede que o WIT Studio imponha o seu próprio ADN estético ao projeto.

E é aí que a ambição se torna evidente. O WIT Studio é o estúdio por detrás de Attack on Titan, Spy x Family e Vinland Saga, séries com uma identidade visual e narrativa muito própria, direcionadas a um público adulto e transmitidas em horário noturno no Japão. O anime original de One Piece, por contraste, sempre foi um produto de domingo de manhã, pensado para crianças. Wada quer mudar esse posicionamento, o remake visa um público mais vasto, com a maturidade estética que o estúdio aplica às suas outras produções.
A escala do desafio não passa despercebida. “O maior desafio na criação de uma obra como One Piece reside na dimensão imensa da sua base de fãs e em superar as suas expectativas. Ao longo dos anos, os fãs construíram a sua própria visão da história, e queremos criar algo que vá além dessa imaginação”. Wada acrescentou que a chave para o conseguir passa pela proximidade com Oda: “Esta obra está muito próxima do coração de Oda, e ele conhece-a melhor do que ninguém; a sua visão vai guiar-nos”.
O contexto em que o projeto se insere também foi abordado com uma franqueza pouco habitual no setor. “Com a Netflix, percebemos que as nossas obras são vistas em todo o mundo. Já não estamos a competir apenas no mercado japonês; estamos a competir com gigantes globais como Hollywood e a Disney”. É uma mudança de perspetiva significativa para um estúdio que, durante décadas, operou num ecossistema essencialmente doméstico.
A equipa criativa confirmada para o projeto tem peso suficiente para alimentar expectativas altas. A direção está a cargo de Masashi Koizuka, que trabalhou em Attack on Titan e no filme Moonrise. Os designs de personagens são de Kyoji Asano, diretor de animação chefe de Spy x Family, e Takatoshi Honda, que ocupou o mesmo cargo no filme The First Slam Dunk. Os guiões ficam a cargo de Taku Kishimoto, conhecido pelo trabalho em Haikyu!! e Ranking of Kings, e que traz ao projeto uma sensibilidade narrativa que vai bem além do puramente visual.
Quanto ao estado da produção, Oda confirmou no Jump Festa 2026 que o projeto está a avançar de forma consistente, mas sem data de estreia anunciada. The One Piece foi revelado ao público no Jump Festa de dezembro de 2023, com o anúncio a coincidir com os 25 anos do anime original. A série deverá adaptar pelo menos a Saga East Blue, embora o alcance exato da adaptação não esteja confirmado.
Enquanto o remake não chega, o anime original da Toei vai regressar a 5 de abril com o início do arco de Elbaph, depois de uma pausa de produção de três meses. A partir de 2026, a Toei reduziu o output anual para um máximo de 26 episódios por ano, uma mudança que a produtora justificou com a necessidade de melhorar o ritmo e a fidelidade ao mangá. É, curiosamente, o mesmo argumento que Wada usa para justificar a existência do remake.







