
Koji Suzuki morreu a 8 de maio de 2026, num hospital em Tóquio. Tinha 68 anos, faltavam apenas cinco dias para completar 69. A causa da morte não foi divulgada publicamente.
O nome pode não ser imediatamente reconhecível para todos, mas o que Suzuki criou é universal, a cassete maldita, o telefone que toca sete dias depois, Sadako a sair da televisão. Ring, a novel que publicou em 1991, é um dos pilares do horror moderno e o responsável direto por uma das personagens mais icónicas da cultura popular japonesa.
De Hamamatsu para o mundo
Suzuki nasceu a 13 de maio de 1957 em Hamamatsu, na prefeitura de Shizuoka, e viveu em Tóquio. Fez a sua estreia literária em 1990 com Rakuen (Paraíso), uma novel que partilhou o prémio de honra nos Japan Fantasy Novel Awards, na segunda edição dos prémios. O segundo livro que publicou foi Ring, e nada voltou a ser igual.
Ring foi adaptado para cinema em 1998, numa versão japonesa realizada por Hideo Nakata com Nanako Matsushima e Hiroyuki Sanada, e depois para o mercado americano em 2002, com a realização de Gore Verbinski. Ambos os filmes foram sucessos comerciais e críticos. A versão japonesa, conhecida como Ringu, é considerada um dos filmes mais importantes do cinema de horror das últimas décadas. A americana, The Ring, levou o J-horror a audiências de massa em todo o mundo ocidental. Suzuki seria frequentemente descrito, do outro lado do Pacífico, como o “Stephen King do Japão”.
A saga não ficou por aqui, a curta história “Floating Water” (Água Escura) deu origem ao filme japonês Dark Water em 2002, também com Nakata na realização, e a uma nova versão americana em 2005. Suzuki chegou mesmo a aparecer em cameo no filme de 1998 baseado em Spiral, novel que publicou em 1995, interpretou um pai numa grande superfície comercial.
Uma obra que atravessou fronteiras e formatos
Ring, Spiral, Loop e Birthday tornaram-se bestsellers com mais de oito milhões de cópias vendidas conjuntamente. Mas o universo criado por Suzuki extravasou os livros, mangás, séries televisivas, videojogos, o crossover Sadako vs. Kayako em 2016, o filme Sadako DX em 2022. A personagem que criou tornou-se numa das figuras mais replicadas e referenciadas do horror mundial.
O alcance internacional do trabalho de Suzuki trouxe-lhe reconhecimento formal além do Japão. Em 2013, tornou-se o primeiro autor japonês a ganhar o prémio de Melhor Romance nos Shirley Jackson Awards, com o livro Edge. Antes disso, tinha recebido o Prémio Literário Yoshikawa Eiji para Novos Escritores em 1996, por Spiral. Em 2021, a Horror Writers Association atribuiu-lhe o Prémio Bram Stoker de Realização ao Longo da Vida, um dos reconhecimentos mais prestigiados no género. As suas obras foram ainda nomeadas para o Prémio Naoki, o Prémio Izumi Kyōka para a Literatura e o Prémio Japonês de Ficção Científica.
Além do horror
Há um lado de Suzuki que a fama de Ring tende a eclipsar. O autor escreveu extensamente sobre parentalidade, foi pai presente e assumidamente doméstico, e os seus ensaios sobre paternidade e família eram uma parte significativa da sua obra não-ficcional. Ligou a imagem do “pai forte que protege a família” frequentemente retratada no cinema americano a uma discussão sobre masculinidade e feminismo que raramente se esperaria de quem tinha construído a sua reputação no horror. Os seus passatempos incluíam viagens, motociclismo e vela.
O escritor que em 1991 imaginou uma cassete que matava quem a visse não escrevia apenas sobre o medo do sobrenatural. Escrevia sobre o que acontece quando algo terrível é esquecido, e sobre a impossibilidade de apagar o que ficou para trás.








