
A partir de janeiro de 2028, todos os jogos novos lançados para consolas PlayStation deixarão de existir em disco. A decisão, anunciada pela Sony a 1 de julho através do PlayStation Blog, já provocou uma onda de críticas de analistas, retalhistas e jogadores, mas o problema vai muito além da nostalgia por uma caixa de plástico na prateleira. Está em causa um mercado global de jogos em segunda mão avaliado em cerca de 7,2 mil milhões de dólares, que corre agora o risco de simplesmente desaparecer.
Os números pertencem à consultora Dataintelo, citada pela CNBC, e referem-se ao valor global do mercado de segunda mão em 2025. Antes do anúncio da Sony, a expectativa era de crescimento sustentado, a um ritmo de 7,5% ao ano até 2034, altura em que o setor poderia valer 13,8 mil milhões de dólares. Os jogos de consola representam sozinhos 42,3% dessa receita, segundo o mesmo levantamento.
O que muda a partir de 2028
Depois de janeiro de 2028, os novos jogos só estarão disponíveis em formato digital, quer através da PlayStation Store, quer em versões de retalho vendidas em caixa mas contendo apenas um código de ativação, o mesmo modelo que será usado em Grand Theft Auto 6, da Rockstar Games. Os jogos já lançados em disco, ou que ainda venham a sair até essa data, não são afetados pela mudança.
No comunicado oficial, Sid Shuman, diretor sénior de comunicação de conteúdos da Sony Interactive Entertainment, justificou a decisão com a evolução dos hábitos de consumo:
“Esta é uma evolução natural para a Sony Interactive Entertainment no sentido de se adaptar às tendências do consumidor, dado que a preferência geral por suportes digitais ultrapassa significativamente a de discos físicos. Esta transição vai permitir alinharmo-nos de forma mais próxima com a maneira como a maioria da nossa comunidade prefere aceder e jogar hoje em dia“.
O argumento da Sony ganha ainda mais força quando se olha para os números de vendas em disco nos últimos meses. Matt Piscatella, diretor sénior da consultora Circana, revelou que apenas dois jogos venderam mais de 10.000 cópias físicas nos Estados Unidos durante a semana que terminou a 11 de julho. Segundo dados divulgados anteriormente pelo mesmo analista, apenas sete títulos ultrapassaram as 100.000 unidades físicas vendidas nos EUA em todo o ano de 2026 até agora.
“Uma decisão extremamente antiquonsumidor”
Nem todos veem a mudança como uma simples adaptação ao mercado. Michael Pachter, diretor de planeamento estratégico da Wedbush Securities, admitiu que a Sony vai poupar dinheiro com a medida, mas sublinhou o custo para quem compra os jogos:
“Não há dúvida de que o consumidor paga a fatura em termos de menos opções“.
Kazunori Ito, diretor de investigação de ações na Morningstar, foi ainda mais direto ao classificar a decisão como um episódio irónico da história da PlayStation, lembrando que a marca construiu parte da sua reputação, em 2013, precisamente ao apresentar o disco físico como a opção simples e amiga do consumidor face às restrições que a Microsoft chegou a propor para a Xbox One.
Já Michael Futter, fundador da consultora F-Squared, especializada na indústria dos videojogos, não poupou nas críticas:
“Esta é uma decisão extremamente anticonsumidor, que não tem justificação legítima e transmite desdém pelos jogadores dentro do próprio ecossistema“.
Futter argumenta ainda que a comparação que a Sony por vezes traça com o mercado de PC não se sustenta, já que os computadores permitem comprar jogos em várias lojas concorrentes, enquanto as consolas continuam a ser ecossistemas fechados e controlados inteiramente pelo fabricante.









