
Uma carta de Pikachu vendida por 16,4 milhões de dólares. Roubos de coleções avaliadas em dezenas de milhares de dólares. Filas de dezenas de milhares de pessoas por causa de uma distribuição gratuita de cartas. O mercado das cartas coletáveis no Japão cresceu tanto, e atraiu tanto dinheiro, que deixou de ser apenas um assunto de lojas especializadas e fóruns de colecionadores, passando agora para a agenda do parlamento japonês.
Segundo avançou a agência japonesa Kyodo News, deputados do Partido Liberal Democrata (PLD), atualmente no poder no Japão, estão a preparar o lançamento de um grupo parlamentar dedicado inteiramente à indústria das cartas coletáveis, com o objetivo de travar a revenda especulativa e a circulação de produtos falsificados. A primeira reunião do grupo está marcada para 23 de julho, e vai contar com a participação de organizações do setor e do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, que vão apresentar aos deputados os principais problemas sentidos por coleccionadores, lojas e editoras de cartas.
O crescimento do setor ajuda a explicar o interesse repentino do governo japonês. De acordo com dados da Associação Japonesa de Brinquedos, o mercado japonês de cartas coletáveis atingiu um valor de cerca de 338,4 mil milhões de ienes em 2025, o equivalente a aproximadamente 2,3 mil milhões de dólares.
Jogos como Pokémon e Yu-Gi-Oh! tornaram-se verdadeiros fenómenos, dentro e fora do Japão, com cartas raras a atingirem valores de milhares de dólares em leilão. O caso mais mediático continua a ser o da carta de Pikachu que pertenceu ao youtuber Logan Paul e chegou a bater um recorde do Guinness ao ser vendida por 16,4 milhões de dólares.
Roubos, falsificações e multidões descontroladas
É precisamente esse potencial de ganhos elevados que transformou as cartas coletáveis num alvo apetecível, tanto para quem compra na esperança de revender com lucro, como para quem simplesmente prefere roubar. A 8 de abril, dois irmãos tornaram-se virais depois de se declararem culpados por um duplo assalto no qual foram roubadas cartas Pokémon avaliadas em 95 mil dólares. Já na Coreia do Sul, um evento gratuito de distribuição de cartas Pokémon teve de ser cancelado depois de cerca de 40 mil pessoas se terem juntado nas ruas de Seul, criando uma situação impossível de gerir em segurança.
O fenómeno também já chegou a outras franquias populares. As cartas coletáveis de Umamusume, por exemplo, começaram recentemente a ser revendidas a preços exageradamente elevados, para surpresa e desagrado dos fãs da série.
Estes preços inflacionados, associados à falta de transparência nas transações, tornam cada vez mais difícil para quem simplesmente gosta de colecionar ou jogar conseguir aceder às cartas que procura a um preço justo.
O que o grupo parlamentar quer discutir
Segundo a Kyodo News, o principal objetivo do novo grupo será criar regras que tornem as transações de cartas coletáveis mais seguras e transparentes. Entre os temas que deverão estar em cima da mesa contam-se:
- Limitação de compras em grande quantidade, destinadas apenas a revenda
- Regulação das práticas de revenda no mercado secundário
- Prevenção de falsificações de cartas
- Possível utilização de cartas de valor elevado para branqueamento de capitais
- Apoio ao crescimento contínuo da indústria fora do Japão
O PLD já esclareceu que este novo grupo parlamentar não deverá resultar de imediato em novas leis ou alterações legislativas. Numa primeira fase, a ideia é sobretudo criar um espaço de diálogo entre deputados, ministérios e representantes da indústria, para discutir de que forma o mercado deve evoluir à medida que continua a crescer.
Não é a primeira tentativa de travar os especuladores
Esta iniciativa surge pouco depois de a própria The Pokémon Company ter revelado que estava a equacionar a introdução de verificações de identidade emitidas pelo governo em determinadas vendas de produtos do jogo de cartas colecionável, precisamente como forma de impedir que especuladores comprem grandes quantidades de produtos antes que estes cheguem às mãos dos verdadeiros fãs.
Também não faltam exemplos, um pouco por todo o mundo, de lojas e comunidades de colecionadores a tentar travar este tipo de prática pelos seus próprios meios, seja através de questionários obrigatórios antes da compra, seja simplesmente organizando-se para identificar e denunciar publicamente quem revende cartas a preços especulativos.









