
A 10.ª edição dos Crunchyroll Anime Awards realiza-se a 23 de maio em Tóquio, com transmissão em direto para todo o mundo. O evento existe desde 2017, foi crescendo em visibilidade e hoje atrai dezenas de milhões de votos de fãs. Apesar disso, há uma questão que persiste há anos e que voltou a ganhar contornos mais nítidos à medida que a cerimónia se aproxima, na indústria anime e mesmo no Japão, país onde o evento se realiza fisicamente, o impacto destes prémios é praticamente nulo.
Quem o diz não são críticos anónimos na internet. Numa peça publicada pela Anime News Network, Jerome Mazandarani, antigo diretor executivo da Manga Entertainment e uma das vozes mais experientes da indústria ocidental de anime, recolheu testemunhos de vários profissionais do sector. As respostas foram diretas.
O editor-chefe de um importante site de entretenimento com sede no Japão foi claro: “O simples facto de o evento ser organizado pela Crunchyroll, um serviço completamente bloqueado geograficamente no Japão, diz-vos que os Anime Awards não são de forma alguma direcionados para uma audiência japonesa. Duvido que alguém aqui saiba que existem”.
A Crunchyroll não está disponível no Japão. O Anime News Network revelou ainda um detalhe revelador, quando a cerimónia se mudou para Tóquio em 2023, havia uma transmissão em língua japonesa que representou cerca de um terço do tempo total de visionamento nesse ano. Em 2024, essa transmissão em japonês desapareceu silenciosamente, o idioma do país anfitrião foi abandonado um ano depois de o evento chegar à sua porta.
A perceção dentro da indústria
As opiniões recolhidas por Mazandarani junto de distribuidores e profissionais internacionais não são mais favoráveis. Um distribuidor internacional afirmou: “Nunca ouvi os Crunchyroll Awards mencionados por ou com licenciadores japoneses, e o único burburinho que ouço entre profissionais da indústria é uma espécie de revirar coletivo de olhos”. O mesmo distribuidor foi ainda mais direto quanto à questão de participar no evento: “É um truque de marketing para marcar o anime enquanto médium com o logótipo da Crunchyroll. Duvido muito que me desse ao trabalho de viajar até ao Japão para isso”.
Um profissional europeu com ligações próximas à cerimónia descreveu à Anime News Network que o evento prioriza a experiência do espetáculo em si, com ênfase em celebridades e convidados que, na melhor das hipóteses, têm uma relação tangencial com a indústria. Os materiais promocionais dos Anime Awards apresentam “quase exclusivamente influencers, embaixadores de marca, estrelas norte-americanas e membros da equipa da Crunchyroll a congratularem-se mutuamente, todos eles maiores do que a vida”.
Outro insider de produção, também anónimo, foi direto ao problema estrutural: “Os prémios devem ser neutros. Não devem ser propriedade, geridos e identificados com uma única plataforma controladora. É como ter os Emmys da Netflix ou algo assim”.
O que está em jogo na 10.ª edição
A lista de nomeados para o Anime of the Year de 2026, divulgada em abril inclui Dandadan 2, Gachiakuta, My Hero Academia Final Season, Takopi’s Original Sin, The Apothecary Diaries 2 e The Summer Hikaru Died. A grande maioria são exclusivos da Crunchyroll, e vários títulos repetem-se noutras categorias da cerimónia.
Esta concentração de títulos da própria plataforma nos nomeados não é nova, mas torna a crítica de falta de neutralidade difícil de contornar. Desde a primeira edição em São Francisco, a cerimónia cresceu em escala e produções, a edição deste ano conta com atuações dos Asian Kung-Fu Generation, Porno Graffitti e da Orquestra Filarmónica de Tóquio, mas não parece ter conseguido ganhar reconhecimento junto de quem produz anime no Japão.
A cerimónia será transmitida em direto no dia 23 de maio a partir do Grand Prince Hotel Takanawa, em Tóquio.






