
Hideaki Nishino, presidente e CEO da Sony Interactive Entertainment, usou a apresentação dos resultados financeiros desta semana para detalhar aquela que é, na prática, a aposta mais ambiciosa da empresa para os próximos anos, integrar inteligência artificial de forma estrutural no desenvolvimento de jogos e na gestão da plataforma PlayStation.
Não se trata de anúncios vagos sobre o futuro. Parte do que Nishino descreveu já está a acontecer dentro dos estúdios da Sony e alguns dos resultados já chegaram a jogos que os jogadores conhecem.
Ferramentas que já estão em uso
O exemplo mais concreto apresentado foi o Mockingbird, uma ferramenta desenvolvida internamente que gera animações faciais a partir de dados de captura de movimento. O que antes levava horas de trabalho manual passa agora a ser feito em frações de segundo. Equipas da Naughty Dog e do San Diego Studio já adotaram a ferramenta, e o seu efeito é visível em títulos já lançados como Horizon Zero Dawn Remastered.
Há também uma ferramenta dedicada à animação de cabelo, um processo historicamente moroso, dado o volume de fios que têm de ser criados individualmente. A solução atual passa por filmar penteados reais e usar IA para gerar automaticamente o modelo 3D correspondente, com centenas de fios. Segundo Nishino, o objetivo é simples, libertar as equipas das tarefas mais mecânicas para que possam investir mais tempo na criação de mundos e experiências de jogo.
“Os nossos programadores estão a automatizar cargas de trabalho repetitivas, a melhorar a produtividade da engenharia de software, e a acelerar áreas como o controlo de qualidade, a modelação 3D e as animações através de novas ferramentas com IA”, explicou Nishino.
Mais criadores, mais conteúdo
Uma das apostas de Nishino é que a IA vai baixar as barreiras de entrada no desenvolvimento de jogos, permitindo que mais criadores entrem no mercado. Na sua perspetiva, isso deverá traduzir-se num “aumento significativo no volume e na diversidade do conteúdo disponível para os jogadores”.
A par disso, a Sony está a trabalhar em experiências que mudam a forma como os jogadores interagem com os mundos virtuais. Nishino referiu protótipos onde personagens não jogáveis têm personalidades próprias e contribuem para um mundo dinâmico que responde às ações do jogador.
Citou também o Gran Turismo Sophy, o agente de corrida desenvolvido em colaboração entre a Sony AI, a Polyphony Digital e a Sony Interactive Entertainment, como exemplo de como a IA pode criar novas formas de jogar. “O Sophy adicionou um nível de competitividade para os nossos pilotos mais experientes”, disse.
O negócio também está a mudar
Para além do desenvolvimento de jogos, Nishino revelou que a IA já está a gerar retorno concreto no lado comercial da plataforma. Ferramentas baseadas em inteligência artificial que otimizam o encaminhamento de transações nas redes de pagamento da PlayStation geraram, segundo o próprio, mais de 700 milhões de dólares em receita incremental ao longo dos últimos anos.
A visão para o futuro vai mais longe: Nishino quer que a IA seja capaz de recomendar não apenas o próximo jogo a comprar, mas também “o próximo momento de jogo, subscrição, acessório ou merchandise que melhor reflita a paixão” de cada utilizador. Uma personalização à escala que seria impraticável sem automatização.
Mencionou ainda o PSSR, o sistema de upscaling por machine learning disponível na PS5 Pro, como outro ponto de contacto entre IA e experiência de jogo, destacando o seu impacto em títulos como Saros e Ghost of Yotei.
A questão que muita gente quer ver respondida
O crescimento da IA no desenvolvimento de jogos levanta uma preocupação recorrente, o risco de substituição de artistas e criadores por sistemas automáticos, sobretudo na criação de assets e arte conceptual. Nishino abordou o tema diretamente, procurando travar esse receio.
“A visão, o design e o impacto emocional dos nossos jogos serão sempre fruto do talento dos nossos estúdios e performers”, afirmou. “A IA serve para potenciar as suas capacidades, não para os substituir”.
É uma posição que a Sony terá de continuar a defender com factos à medida que a adoção destas ferramentas se intensifica. Por agora, o discurso de Nishino posiciona a IA como um acelerador de processos, não como um substituto de pessoas, numa indústria que acompanha este debate com atenção crescente.








